segunda-feira, 4 de novembro de 2013

Uma divulgação das ciências

No início da década de 1990, dois biólogos produziram um modelo de "produção sustentável" que previa quantos indivíduos de cada espécie poderiam ser caçados de forma sustentável, baseado em suas taxas de reprodução. Esse modelo era largamente aceito no meio científico.

No Alto Juruá, uma região que abrange quatro municípios no Amazonas, a história era outra. Lá, os seringueiros haviam elaborado um modelo próprio e diferente. Quando diziam a eles que estavam caçando acima do sustentável - levando-se em conta o modelo dos dois biólogos, o modelo Redford e Robinson - os seringueiros negavam e explicavam que o nível da caça dependia da existência de áreas de refúgio, nas quais ninguém caçava.

Depois de 10 anos, esse modelo "alternativo" foi “legitimado” pela ciência (aliás, um dos autores do modelo anterior, Redford, reconheceu que os seringueiros estavam certos). Para a antropóloga brasileira Manuela Carneiro da Cunha, do departamento de antropologia da Universidade de Chicago, a universalidade do conhecimento científico não se aplica aos saberes tradicionais. Em seu artigo Relações e Dissensões entre saberes tradicionais e saber científico, de 2007, Manuela explica que a pretensão de universalidade da ciência remete ao século XVII, quando é instaurada a ciência moderna. “Ela [a ciência] foi construída como una, através de protocolos de pesquisa acordados por uma comunidade”.

No entanto, ao citar Bruno Latour, a antropóloga vai dizer que a ciência não passa ao largo de seus praticantes - ou seja, ela se constitui por uma série de práticas, que não ocorrem num vácuo político e social. Para exemplificar, ele fala dos físicos, que pode muito bem “trabalhar de manhã com física quântica, de tarde com a newtoniana e de noite consultar um pai-de-santo ou rezar numa igreja”. Em outras palavras, uma coisa é falar da física enquanto disciplina, outra coisa é falar dos físicos, que agem e pensam, sentem e se emocionam.

Por essas e outras razões, sempre estremeço toda vez que tenho contato com algum defensor apaixonado da divulgação científica. Essa defesa cega de uma divulgação que, por imposição disfarçada de bom-mocismo, quer “tornar acessível o conhecimento da ciência”. Qual conhecimento científico? Aquele que, para o senso comum, é considerado, como diz Manuela Carneiro, um tesouro no sentido literal da palavra, um conjunto acabado que se deve preservar, um acervo fechado transmitido por antepassados. Essa divulgação científica que vemos por aí, portanto, é a divulgação de uma ciência - o conhecimento científico hegemônico, da ciência ortodoxa e ocidental. No entanto, é preciso saber que “há pelo menos tantos regimes de conhecimento tradicional quanto existem povos”, diz Manuela, para quem:

Essa hegemonia manifesta-se até na linguagem comum em que o termo “ciência” é não-marcado, como dizem os linguistas. Isto é: quando se diz simplesmente “ciência”, “ciência” tout court, está se falando de ciência ocidental; para falar de ciência tradicional, é necessário acrescentar o adjetivo.

A questão, portanto, é a necessidade de ser criar uma nova divulgação científica, capaz de levar em conta as ciências tradicionais. Não falo de nada mirabolante. Um exemplo está na Semana Nacional de Ciência e Tecnologia, coordenada pelo Ministério da Ciência, Tecnologia e Inovação e que em outubro deste ano chegou a sua 10ª edição. Segundo me explicou Douglas Falcão, coordenador da Semana no MCTI, o evento abriu espaço para manifestação de tradições locais, que devem ser consideradas ciência. Muitos municípios que desejam participar da Semana Nacional têm dificuldades para identificar instituições de ciência. Às vezes, o município acha que, por não ter grandes universidades ou instituições de pesquisa, não tem condições de sediar atividades da Semana.

A concepção de ciência, no entanto, é mais abrangente. O município pode não ter um ITA, uma Unicamp, desenvolvendo pesquisas de ponta, mas pode ter uma pequena fábrica que desenvolveu um novo processo de fabricação de tecido - por que isso não poderia ser enquadrado como ciência ou mesmo inovação? E no caso de uma comunidade de pescadores, que desenvolveu uma nova forma de pescar, um novo método sustentável - por que isso não seria ciência? O problema, aqui, é quando o conhecimento tradicional local só é reconhecido depois que a ciência “oficial” bate o carimbo de confirmação. Na verdade, o conhecimento tradicional local deve ser reconhecido como tal - e ele não deixa de ser ciência caso não seja legitimado pela ciência “oficial”.

Como bem mostrou Latour, no livro Ciência em Ação, muitos cientistas acreditam que as pessoas deveriam ir em uma só direção, a única racional. No entanto, essas pessoas (“comuns”), optam por seguir muitas vezes por linhas irracionais - falam do tempo, do clima, em conversas de elevador, sem se valer do conhecimento científico, mas da sensções. Depois, Latour vai dizer que devemos acabar com essa oposição entre ideias racionais e irracionais - mas isso fica para um outro post.

Um comentário:

  1. Discordo que a questão dos seringueiros seja exemplo da não universalidade das ciências. É apenas um caso (entre tantos) de um modelo científico que não funcionou. Refutação de modelos faz parte do processo científico.

    Para valorizar um saber tradicional, não é preciso trazê-lo à condição de ciência. É possível, já que esta última expressão é um tanto polissêmica. Mas parece trazer mais ruído do que informação.

    Por exemplo, um saber tradicional que atualmente é um tanto quanto raro: atos sacrificiais (de humanos) para aplacar forças naturais. É um saber tradicional. Chamemos de ciência. Afora a questão ética (que é o que preocuparia a maioria das pessoas que não coadunam com essa prática), qual o ganho em considerá-los científicos? Como fazer frente com o fato de que as forças naturais atuam independentemente da morte de pessoas?

    Por outro lado, o saber tradicional de colocar uma vassoura de ponta cabeça atrás da porta para afugentar visitas indesejadas. Qual seria o ganho de chamar isso de ciência? A valorização disso como um traço cultural benigno - sem maiores consequências eticamente indesejáveis e até algum ganho social (o estreitamento de laços afetivos no compartilhamento desses saberes) - pode perfeitamente ocorrer considerando-se como algo não científico e até cientificamente refutado.

    Chamar saberes tradicionais de ciência, parece-me, mais desqualificá-los como tais - só tendo importância quando considerados ciência (ainda que por expansão semântica de um sentido mais estrito).

    []s,

    Roberto Takata

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