sexta-feira, 13 de dezembro de 2013

A tirania das revistas científicas

Schekman: crítica à 'tirania' das revistas científicas 
"Eu sou um cientista. Este meio é um mundo profissional em que se conquistam grandes coisas para a humanidade. Mas é marcado por alguns incentivos inadequados. Os sistemas vigentes de reputação pessoal e progressão na carreira significam que muitas vezes as maiores recompensas são para as obras mais chamativas, não as melhores. Aqueles de nós que respondem a esses incentivos estão atuando de um modo perfeitamente lógico - eu mesmo tenho atuado movido por eles - mas nem sempre colocando os interesses de nossa profissão acima de tudo, para não mencionar aqueles da humanidade e da sociedade".

É assim que começa o artigo escrito por Randy Schekman, e publicado no jornal The Guardian, no qual o biólogo norte-americano e vencedor do Prêmio Nobel de Medicina em 2013 critica o sistema de publicação científica de revistas consagradas, como Nature, Science e Cell.

Para Schekman, existe um consenso de que essas revistas representam o paradigma da qualidade científica, ao publicarem os resultados das melhores pesquisas. Uma vez que as agências de apoio à pesquisa muitas vezes usam o local de publicação como um indicador da qualidade do trabalho científico, ter um trabalho publicado nessas revistas muitas vezes traz subsídios e cátedras.

"Mas a reputação das grandes revistas somente está garantida até certo ponto. Embora publiquem artigos extraordinários, eles não publicam 'apenas' trabalhos ilustres. Nem tampouco são as únicas que publicam pesquisas de destaque", diz ele.

A crítica de Schekman está no fato de que essas revistas promovem de forma agressiva suas marcas, de uma maneira que leva mas à venda de assinaturas do que ao fomento das pesquisas mais importantes.

Schekman considera que a pressão sobre os cientistas para publicar nessas revistas 'de luxo' encorajam os pesquisadores a perseguir campos científicos que estão na moda em vez de realizar trabalhos de mais relevância. "A teoria é que os melhores artigos se citam com mais frequência, de modo que as melhores publicações obtém as pontuações mais altas. Mas se trata de uma medida tremendamente viciada, que persegue algo que se converteu em um fim em si mesmo e é tão prejudicial para a ciência", diz.

Em resposta, Philip Campbell, diretor da Nature, afirmou que a revista trabalha com a comunidade científica há mais de 140 anos e que o apoio recebido por parte dos autores de pesquisas e críticos valida seu trabalho."Selecionamos as pesquisas que vão ser publicadas na Nature com base em sua importância científica", disse ele em comunicado enviado à Agencia Efe.

"A comunidade científica tende a uma "superdependência" ao avaliar as pesquisas pela publicação na qual aparecem ou pelo "fator impacto" dessa revista", reconheceu Campbell.

- O jornal El País fez uma boa reportagem repercutindo o assunto: ¿Y si la ciencia no es eso que tú crees? (E se a ciência não é o que você acha?). Reproduzo um trecho abaixo:

O nosso mundo é governado pela ciência, em maior medida do que pensamos. Um governante pode acreditar que sua raça - ou aldeia e posições - é superior em relação às demais, mas não poderá fugir com sua posição sem uma ciência de qualidade e independente para apoiá-lo; um magnata pagará um monte de dinheiro para fazer crer que sua pasta de dentes, sua fonte de energia ou seus meios de comunicação são superiores aos demais, mas fracassará se não puder apontar evidências científicas. Os alimentos que comemos, a informação na qual acreditamos e os medicamentos que consumimos dependem crucialmente de uma ciência respeitável, honesta e avaliada com critérios transparentes. Nós temos essa ciência?

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