segunda-feira, 16 de dezembro de 2013

Agamben, Latour e o poder da ciência

Estava relendo uma ótima entrevista concedida, em 2012, pelo filósofo italiano Giorgio Agamben a Peppe Salvà, quando me deparei com a seguinte afirmação de Agamben:

Minhas investigações mostraram que o poder soberano se fundamenta, desde a sua origem, na separação entre vida nua (a vida biológica, que, na Grécia, encontrava seu lugar na casa) e vida politicamente qualificada (que tinha seu lugar na cidade). A vida nua foi excluída da política e, ao mesmo tempo, foi incluída e capturada através da sua exclusão. Neste sentido, a vida nua é o fundamento negativo do poder. Tal separação atinge sua forma extrema na biopolítica moderna, na qual o cuidado e a decisão sobre a vida nua se tornam aquilo que está em jogo na política. O que aconteceu nos estados totalitários do século XX reside no fato de que é o poder (também na forma da ciência) que decide, em última análise, sobre o que é uma vida humana e sobre o que ela não é. Contra isso, se trata de pensar numa política das formas de vida, a saber, de uma vida que nunca seja separável da sua forma, que jamais seja vida nua.

A entrevista completa foi publicada na Ragusa News e está disponível em português no site do Instituto Humanitas Unisinos

Essa citação de Agamben me remete a outra, de Bruno Latour, sobre a separação 'moderna' entre humanos (sujeito) e não humanos (objeto) e, portanto, entre homens e natureza. Em Políticas da Natureza, Latour diz:

Servindo-se da objetividade para abreviar os processos políticos, ousou-se confundir as ciências com esse atalho que a violência autorizava - e tudo isso em nome da mais alta moral e da mais melindrosa das virtudes! Com a natureza queria-se passar à força, isto é, com razão. Sim, uma verdadeira impostura intelectual, felizmente tornada sem efeito.

Segundo Latour, na 'Constituição Modernista' a vida política foi dividida em câmaras, formando assembléias igualmente ilícitas: a Ciência, que definia o mundo fora de todo processo público; e a Política, que devia contentar-se com "as relações de forças", com a multiplicidade de pontos de vista, com a única habilidade maquiavélica. Ambas, nos entanto, possuíam uma estratégia para colocar fim à discussão: a razão indiscutível, a indiscutível força.

Certo de que agora a irrupção da natureza não paralisa mais a composição progressiva do mundo comum, Latour defende que é necessário "convocar o coletivo”. Esse coletivo está encarregado de “coletar" a multiplicidade de associações de humanos e não-humanos, sem recorrer à brutal segregação entre as qualidades primárias e as secundárias que permitiram até aqui exercer em segredo funções privilegiadas.

Essa competência do “Terceiro Estado", da res publica (os cidadãos), contudo, nunca deixou de existir; ela, na verdade, sobrevivia de forma oculta em um duplo problema de representação, que, segundo o autor, a antiga Constituição obrigava a tratar separadamente: "a epistemologia desejosa de saber que a condição pode ter uma representação exata da realidade exterior; a filosofia política buscando sob que condição um mandatário pode representar fielmente seus semelhantes". 

Os traços comuns destas duas questões não podem ser reconhecidos; trata-se de uma segregação radical entre as questões de natureza e as questões políticas.


Um comentário:

  1. Interessante seria introduzir nessa discussão a Terceira Cultura de C.P.Snow que proveio do próprio
    C.P.Snow no seu livro The Two Cultures . Essa discussão também se aplica ao discutido em outra
    parte do Blog sobre Polimatia . No fundo mais amplamente ainda , é a questão de sistemas complexos,
    sistemas de sistemas , com interações não-lineares . Polimatia requer esses conceitos e mais que isso
    os Polimatas , o Homo-sapiens-sapiens + máquinas, intuitivo, inovador , interdisciplinar e multi-cultural .....
    sergiomascarenhas28@gmail.com

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