quinta-feira, 19 de dezembro de 2013

O 'monopatismo' é uma doença

Quem minimamente me conhece, percebeu que nos últimos meses me tornei um tanto monotemático. Mesmo aqui no blog, os meus últimos textos tem batido muito na tecla científica. Posts sobre divulgação científica, crítica à ciência, blogs de ciência etc. saltam aos olhos do leitor, que ainda têm que lidar com rotineiras referências que faço a obras de alguns autores, especialmente Bruno Latour e Paul Feyerabend. Mas não pense que está sendo fácil. Todos esses assuntos e filósofos e sociólogos - essa carga sisuda e provavelmente abominada, com razão, por parte daqueles que visitam pela primeira vez meu blog - rondam aquilo que chamo de ‘meu projeto de mestrado’, que está em andamento no Labjor-Unicamp. Isso era de se esperar: com a intensificação de minha pesquisa, minha mente e minhas pretensões criativas iriam ser povoadas pela bibliografia que tem me velado a surtar enriquecer meu trabalho de mestrado.

Alguns comentários recentes de pessoas que acompanham meu blog me levaram a refletir, agora, sobre isso. Uns afirmam que, de um tempo para cá, meu blog está mais ‘sério’. Outros me perguntam sobre aqueles posts mais ‘leves’, que trazem figuras, arte, enfim, leveza na leitura. Percebi, afinal, que de fato as coisas mudaram por aqui. E percebi também que não quero tornar esse espaço, que sempre foi, na medida do possível, plural, em um poço de lucubrações filosóficas. Quando decidi criar um (novo) blog, eu não sabia bem como ele seria, mas uma coisa tinha certa em mim: ele não poderia ser sobre um tema único. Por mais que eu me satisfaça escrevendo sobre ciência, eu não sou científico. Eu não sou apenas isso. Eu também sou arte, economia, cinema, música - inclusive gosto de falar mal da ciência, apontar suas falhas. O blog leva o meu próprio nome por causa dessa diversidade. Quando me perguntam sobre o que é meu blog, não sei a resposta. “Sobre mim?”, exito em responder. Mas isso soaria estranho, como se eu escrevesse um diário.

Nada contra blogs especializados. Aliás, acompanho uma centena de blogs especializados em ciência, muitos deles ricos em informação e análise - o que só se alcança com muita dedicação da parte dos autores. O problema é que a especialização sempre me causou calafrios. Fico pensando, às vezes, o quanto seria angustiante eu querer muito publicar um texto sobre, por exemplo, gastronomia, mas mantendo um blog especializado em ciência. Eu teria que fazer um contorcionismo e relacionar a gastronomia à ciência - o que não seria difícil, afinal há vários livros e artigos sobre o tema. Mas e se eu simplesmente quisesse fazer um texto despretensioso sobre caldo de vitela, sem entrar em questões científicas? Eu teria que fazer uma ressalva para meu leitor, do tipo “caro leitor, hoje você não lerá sobre missão espacial alguma, mas sim sobre caldo de vitela, apenas”. Isso me deixaria louco.

Mas o fato é que meu blog tem caminhado no sentido da especialização, ou, como diria o escritor Robert Twigger, ao “mundo monopático” - um lugar onde somente pessoas com pensamento único (ou com um único objetivo) podem prosperar.

Em um belíssimo artigo publicado no site da AEON Magazine, Twigger discorre sobre a capacidade do ser humano de ser ‘polímata’, isto é, não restringir seu conhecimento a uma única área, ainda que o pensamento ocidental diga o contrário. Twigger explica que o sistema monopático deriva da credibilidade de seu sucesso nos negócios. No final do século XVIII, Adam Smith (ele mesmo um ‘polímata’ que escreveu não apenas sobre economia, mas também sobre filosofia, astronomia, literatura e direito) notou que a divisão do trabalho era o motor do capitalismo - e ainda o é. O famoso exemplo de Smith foi a maneira na qual a fabricação de pregos pode ser decomposta em partes, aumentando a eficiência global de produção. Adam Smith também observou que uma ‘mutilação mental’ acompanhou essa rigorosa divisão do trabalho.

Como disse Alexis de Tocqueville: “Nada tende a materializar o homem, e privar seu trabalho do menor traço de espírito, mais do que a extrema divisão do trabalho”.

Se pararmos para pensar bem, de fato arquitetamos nossos currículos (Lattes ou não) como se quisessemos dizer ao mundo que tudo o que fizemos na vida foi dedicar horas, dias, meses e anos a uma só causa, assunto ou técnica. Twigger quetiona: é senso comum tentar criar a impressão de que estamos inteiramente focados no trabalho? Isso sempre foi assim?

“Não”, responde ele mesmo. No sentido clássico, um polímata era aquele que ‘tinha aprendido muito’, conquistado muitas áreas do conhecimento. Como o polímata do século XV Leon Battista Alberti, um arquiteto, pintor, cavaleiro, arqueiro e inventor. Durante o Renascimento, diz Twigger, a polimatia tornou-se parte da ideia de homem perfeito, o mestre coletor de atividades intelectuais, artísticas e físicas. “Dizem que Leonardo da Vinci era tão orgulhoso de sua habilidade em dobrar barras de ferro com as mãos quanto por ter pintado Mona Lisa”.

Twigger afirma que há uma enorme dissonância cognitiva no centro da cultura ocidental. Trata-se de uma grande confusão sobre como novas ideias, novas descobertas e novas artes realmente acontecem.

Ele dá o exemplo da ciência. “A ciência gosta de se projetar como limpa, lógica, racional e desprovida de emoção. Na verdade, ela é bastante casual, impulsionada pelo financiamento e pelo ego, dependente de intuição inspirada pelos seus praticantes. Acima de tudo, ela é polimática”. Twigger cita o caso do DNA. “Francis Crick, que intuíu a estrutura do DNA, era originalmente um físico. Ele declarou que este conhecimento anterior da física deu-lhe confiança necessária para resolver problemas que eram considerados insolúveis pelos biólogos”. Isso mostra como novas ideias frequentemente são originadas da “fertilização cruzada” de das áreas aparentemente separadas - biologia e física. Outro exemplo: Richard Feynman, que venceu um prêmio Nobel com suas ideias sobre eletrodinâmica quântica ao prestar atenção em um peculiar hobby que tinha: girar um prato em seu dedo.

Por mais que ultimamente eu tenha me mantido preso ao contexto da ciência e da divulgação científica - temas de meu projeto de mestrado - é importante exercitar a reflexão sobre outros temas. Até porque isso que chamamos de ciência é apenas uma de muitas. Essa pensamento científico ocidental e ortodoxo, que triunfou no sistema capitalista e é até hoje sacralizado, ele próprio opera uma maneira de pensamento único. Mas a vida é mais abundante e mais diversa.

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