quarta-feira, 4 de dezembro de 2013

O SUS-problema e a cobertura jornalística

Desde que me formei em 2010, sempre defendi a ideia de que o jornalismo não pode se limitar ao papel de noticiar problemas. Claro que essa 'nobre' tarefa de fuçar e achar falhas, fraudes, trambiques e casos de corrupção será, e continuará sendo, aquilo que todo jornalista persegue ao longo da carreira. Aquele desejo incontrolável de derrubar o presidente, de pegar algum político colocando dólares na cueca ou simplesmente ver que seu trabalho ajudou a tapar o buraco da rua. Lançar luz (um canhão de luz, na maioria das vezes) sobre os fatos, tendo como ponto de partida a desconfiança, a descrença: essa é a regra em grandes redações, em qualquer área de cobertura. Quando digo que o jornalismo não pode se limitar a isso é porque, agindo assim na maioria das vezes, corre-se o risco de não noticiar os bons exemplos.

Não estou dizendo que o jornalismo deve abandonar o espírito investigativo e de denúncia, mas sim qualificá-lo. O problema é que o senso comum diz que se algo está sendo investigado, é porque este algo não cheira bem. Por que uma investigação não poderia também levar a descobertas positivas? Por exemplo, investigar por que a administração de um hospital público está dando certo. Quer dizer que se alguma coisa é boa, dá certo, ela não pode ser 'investigada', para que possa talvez servir de modelo para iniciativas semelhantes?

Nesse caso que dei do hospital, uma reportagem iria, de forma mais objetiva possível, fazer um levantamento dos fatores que contribuem para o bom desempenho do hospital; qual o modelo de gestão adotado; quais articulações foram feitas para que se cumprissem determinadas metas etc.

Uma vez, quando ainda trabalhava na agência do jornalista Luis Nassif, fiz uma série de reportagens sobre os Centros de Atenção Psicossocial (CAPS). Minha proposta não foi ir atrás dos casos problemáticos, mas sim dos centros que estavam dando certo no país. Não que maus casos devessem continuar desconhecidos, mas uma rápida pesquisa na internet me mostrou quase nada sobre os bons CAPS, até porque a cobertura de políticas públicas em saúde mental em grandes jornais não é, digamos, rotineira. Entrei em contato com várias pessoas que atuam na área, que me indicaram os centros que deveriam ser ouvidos. A flexibilidade de trabalhar com o jornalismo online me permitiu dedicar um texto para cada caso.

Fiz um post só para falar de como era a administração dos CAPS em Recife, outro para falar de São Bernardo do Campo e daí em diante. É claro que eu apontava nos textos as dificuldades, os problemas, mas mantinha o foco na seguinte questão: o que faz funcionar os CAPS dessa cidade? Por que são modelos?

Essa série de reportagens foi bastante comentada no blog do Nassif, onde foi originalmente publicada. Fiquei feliz ao ver que profissionais gestores de saúde de outros municípios leram minhas matérias e depois contaram sobre os problemas enfrentados em suas cidades - graças a essa colaboração pude saber de outros casos que também estavam dando certo. Mas muitos comentários, em vez de acrescentarem ao debate, fizeram questão de acusar que eu, o repórter, havia sido comprado por algumas prefeituras para que fossem produzidas matérias tão "positivas".

Intervi nos comentários, me defendendo. Disse que não havia ganhado um tostão sequer com aquilo e que jamais me rebaixaria a tal atitude. Foi em vão. Alguns poucos comentaristas continuavam argumentando que uma matéria que apontava os pontos positivos da saúde pública de São Bernardo do Campo, por exemplo, ou era paga ou tinha outros interesses escondidos, tais como levantar a bola da gestão da ápoca, já que estávamos em ano de eleições municipais. Lamentável. Pensei que se eu estivesse fazendo o contrário, somente denunciando, amplificando problemas locais e os generalizando, como se fossem um problema de todo o Sistema Único de Saúde (SUS), talvez eu fosse louvado por aqueles leitores.

Mas nunca tive o desejo de acariciar, acalmar ou pegar no colo leitor algum.

Escrevi tudo isso, porque acabei de ler um estudo feito por pesquisadores da Universidade Federal de Uberlândia (UFU), que analisou 667 reportagens sobre o SUS publicadas pelo jornal Folha de S.Paulo em 2008. Segundo os pesquisadores, Gabriela Martins Silva e Emerson Fernando Rasera, o jornal que 'não dá pra não ler' coloca o SUS como um problema (o que eles chamam, durante o artigo, de SUS-problema).

"A mídia faz divulgação do SUS pautada no privilégio de notícias sobre problemas e crises, a partir da valorização do novo e da pauta 'quente', característica do fazer jornalístico. Assim, pudemos refletir sobre os efeitos dessa construção, sendo considerada a promoção da compreensão simplista, descontextualizada e imediatista do Sistema, que não contribui para a participação do usuário, via controle social, nem para a efetivação do SUS", afirmam os autores.

O estudo considera que a divulgação dos aspectos problemáticos do SUS tem o papel importante de denunciar os problemas enfrentados pelos usuários, assim como dar visibilidade às dificuldades e limitações do Sistema, podendo nesse sentido contribuir para sua melhoria. Mas conclui que, de forma paradoxal, noticiando esses aspectos, construindo o SUS-problema, a Folha acaba limitando as possibilidades de ação para reverter a situação problemática denunciada, gerando um cenário de gravidade, imutabilidade e passividade.

Alguém que ler este post e cogitar pensar que ao defender o SUS defendo o PT, sinto dizer, mas tem sérios problemas.

O artigo completo pode ser lido aqui (clique).

A série que fiz sobre saúde mental já foi publicada neste blog, aqui.

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ATUALIZAÇÃO DIA 11 DE DEZEMBRO, ÀS 16h30:

Sugiro a leitura do artigo Banco Mundial e SUS: o que você só vê na mídia (clique), escrito por Eduardo Fagnani, professor do Instituto de Economia da Unicamp. No texto, ele critica a cobertura feita pela Folha de S.Paulo sobre um relatório do Banco Mundial avaliando os 20 anos de SUS. Fagnani resolve o problema indo direto à fonte (Banco Mundial) e mostrando que, na verdade, o relatório elogia o sistema público de saúde brasileiro, apontando sugestões para enfrentar os desafios nos próximos anos. Vale conferir.

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