terça-feira, 28 de janeiro de 2014

Espiritualidade e tratamento médico

Medicina e espiritualidade sempre andaram juntas, o que não significa de forma pacífica. Muitas vezes, ao longo do tratamento médico, o paciente recorre à fé e à religião como forma de ser curado ou até mesmo ressuscitar (sim, ressuscitar, veja aqui). Por mais que a crença pessoal do médico não o faça aceitar a dimensão espiritual nessas horas, o fato é que o paciente demanda esse tipo de abordagem em relação ao sofrimento - uma posição considerada 'irracional' por muitos profissionais da saúde, amparados pelo conhecimento científico.

Por exemplo, uma pesquisa feita por dois médicos no Hospital São Francisco, do Complexo da Santa Casa de Porto Alegre, em 2012, mostrou que entre 260 pacientes ouvidos, todos disseram que acreditavam em Deus. Quando questionados sobre a crença na vida depois da morte, 71,1% dos participantes da pesquisa disseram acreditar. Quando se cruzaram as perguntas sobre religião e saúde, mais de 84% disseram acreditar que ter fé faz bem à saúde e 88,2% usava a fé como conforto na doença. Além disso, mais da metade dos pacientes gostaria que o médico falasse sobre espiritualidade. Mais de 70%, no entanto, disse que o médico nunca falou sobre o assunto. E 16% dos pacientes acham que a doença é um castigo de Deus.

Outra pesquisa, de 2010, investigou como médicos que se declaram ateus e médicos que se declaram religiosos agem em relação a pacientes em fase terminal. O estudo, publicado no Journal of Medical Ethics, mostrou que médicos ateus, ou agnósticos, têm mais probabilidade de tomar decisões que acelerem o fim da vida do paciente terminal do que médicos profundamente religiosos, cerca de 12% dos profissionais ouvidos pela pesquisa. Os autores do estudo chegaram a dizer que os resultados são preocupantes e mostram que é necessário dar mais atenção em como as crenças religiosas influem no cuidado médico. A pesquisa foi feita com mais de 8.500 médicos do Reino Unido, mas respondida por menos da metade (leia mais aqui).

Existem muitas outras pesquisas que abordam essa relação entre tratamento médico e espiritualidade. Algumas inclusive apontando que pacientes movidos pela fé conseguem obter melhor qualidade de vida. Um estudo de 2004, publicado no São Paulo Medical Journal, por exemplo, verificou a prevalência do uso de medicina alternativa/complementar por pacientes oncológicos e correlacionou os achados com a qualidade de vida. No caso, o tipo de medicina alternativa/complementar mais utilizado pelos pacientes entrevistados foi a oração individual (77,5%).

A conclusão da pesquisa foi: "A utilização de medicina alternativa/complementar em nosso meio é freqüente em pacientes com câncer e a crença na sua eficácia e a prática de orações se correlacionaram significativamente com uma melhor qualidade de vida, de forma que tais práticas não devem ser desestimuladas pelos profissionais da área médica. Novos trabalhos prospectivos devem ser conduzidos para melhor caracterizar a eficácia destas práticas terapêuticas alternativas" (para acessar o paper, clique aqui).

Fé cura?

Acho que nunca saberemos. Mas o fato é que os médicos precisam estar mais sensíveis a essa questão. É o que também defende o psiquiatra Frederico Camelo Leão, pesquisador do Instituto de Psiquiatria (IPq) do Hospital das Clínicas da Faculdade de Medicina da USP. Lá, Leão coordena o Programa de Saúde, Espiritualidade e Religiosidade (ProSER), que, segundo reportagem publicada no site da USP, busca compreender a relação entre saúde, espiritualidade e religiosidade a partir de atividades de pesquisa, ensino e assistência terapêutica.

Ao site da USP, Leão explica que a complexidade do ser humano e a saúde mental vão muito além das questões neuroquímicas.

Ele ainda disse que trabalho científicos vem conseguindo mostrar que práticas como meditação, orações ou a dedicação a determinada religião podem (repito, podem) estar associadas a melhoras na defesa imunológica e na longevidade. Frequentar uma igreja, por exemplo, além de trabalhar a espiritualidade, traz um fator importante em momentos de dor: o suporte social, diz Leão.

“Muitas das queixas de pacientes internados vêm do fato de serem tratados apenas como um leito, um diagnóstico. Quando você faz uma abordagem diferente, dando a oportunidade da pessoa falar sobre sua intimidade, suas crenças, a pessoa se sente mais acolhida”, disse Leão ao site da USP.

O pesquisador ainda conta que o tema tem ganhado espaço em publicações científicas. Exemplo é a edição especial dedicada ao assunto feita pela Revista de Psiquiatria Clínica. Essa edição da revista pode ser acessada aqui

No site do ProSER há uma rica bibliografia sobre o assunto, além de mais informações sobre o programa.

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Em outubro de 2012, publiquei neste blog um depoimento meu sobre o modelo de tratamento utilizado pelos Alcoólicos Anônimos (AA) - leia aqui. Ao longo de 3 meses, mais ou menos, eu frequentei uma unidade do AA, em São Paulo, com a finalidade de compreender como um tratamento com forte influência espírita, e que praticamente não faz uso de métodos clínicos, consegue manter tantos alcoólatras longe do vício.

De certa forma, esse debate sobre espiritualidade e medicina tem muito a ver com a experiência do AA.

Antes de chegar ao AA, a maioria das pessoas passa por tratamentos médicos para se livrar do problema com o álcool. Frequentam clínicas, são consultados por psiquiatras, psicólogos. Alguns, que além do alcoolismo também são vítimas de doenças mentais, como esquizofrenia, vivenciam experiências desumanas, como os tratamentos manicomiais à base de eletro-choque. Em todos esses casos, eles são abordados como pacientes, sempre de um ponto de vista clínico, médico. Nesse tipo de tratamento clínico, o paciente faz parte de um hierarquia, cujo topo é ocupado, sempre, pela figura do especialista, geralmente o médico.

Ao chegar ao AA, essa hierarquia é desconstruída e, no lugar, é construída uma relação de igual para igual entre aqueles que sofrem do mesmo problema, o alcoolismo. O AA não é contra o uso de medicamentos, muito menos desencoraja seus frequentadores a continuar com tratamentos psiquiátricos. O AA, na verdade, vem preencher justamente a lacuna que é deixada de lado pela medicina: a espiritualidade.

E falo de espiritualidade no sentido mais amplo possível, pois não se trata apenas da dimensão religiosa. Essa espiritualidade também diz respeito ao estabelecimento da comunicação livre entre pessoas que compartilham sofrimentos semelhantes (uma troca, ou diálogo, entre consciências).

Muitas pessoas que conheci durante essa experiência me relataram exatamente isso: "passei anos nas mãos médicas, dos especialistas e dos remédios. Mas somente meus companheiros de AA entendem o meu sofrimento". Numa típica reunião de AA, seus integrantes não são obrigados a falar. Aqueles que o querem, relatam suas angústias, seus medos, suas conquistas recentes, suas dúvidas e raivas. Em troca, têm os ouvidos dos demais. Com o tempo, essa prática torna-se um hábito, uma necessidade. A figura do médico deixa de ser onipotente e onipresente, e o paciente recupera a dignidade.

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