sexta-feira, 17 de janeiro de 2014

O diálogo entre a comunidade científica e os indígenas

Tá aí uma iniciativa para se acompanhar de perto. A reunião anual deste ano da Sociedade Brasileira para o Progresso da Ciência (SBPC), que será realizada em julho no Acre, terá uma nova atividade voltada exclusivamente para discutir a relação entre ciência e conhecimentos tradicionais. A ideia da SBPC Indígena, como foi batizada a iniciativa, é incluir na programação científica debates do universo indígena como “Ciência e Educação Indígena”, “Saúde Indígena”, além da realização de rituais e apresentações musicais de povos indígenas do Brasil, Bolívia e Peru.

Nos últimos anos a SBPC, a entidade mais representativa da comunidade científica do país, tem dado mais espaço para debates desse tipo em seus eventos. Na reunião anual de 2012, no Maranhão, por exemplo, houve debates sobre culturas e tradições e também sobre as ciências praticadas em comunidades quilombolas e indígenas. No evento deste ano, a decisão de dedicar um espaço maior para o assunto se deve, principalmente, ao fato do Acre ter um contingente significativo de populações indígenas.

Sempre que vejo cientistas dizendo que 'é preciso dialogar com os índios', uma pergunta me vem à cabeça: quais as intenções da ciência 'ortodoxa' com essas comunidades indígenas e o conhecimento acumulado por elas? Sabe-se que elas detém conhecimentos tradicionais a cerca de plantas medicinais, por exemplo, o que é de total interesse da indústria cosmética e de seus ricos laboratórios. Aí me pergunto: a comunidade científica quer intensificar o diálogo com as comunidades indígenas para melhor se apropriar dos conhecimentos tradicionais e, assim, revertê-los em produtos rentáveis? Ou, ainda, a comunidade científica quer mostrar aos índios que o conhecimento deles só é válido se tiver o aval academicista (a legitimação) dos cientistas?

Bem, fiz essas perguntas a Helena Nader, presidente da SBPC. "Não se trata de se apropriar do conhecimento tradicional", disse ela. "Queremos dialogar com eles [os indígenas], porque temos que garantir que tudo o que eles sabem terá um retorno a eles, caso o conhecimento vire um produto", completou Nader, que ainda citou a Lei de Acesso à Biodiversidade como uma de suas preocupações. A lei é considerada um marco legal para a exploração do patrimônio genético da biodiversidade brasileira.

Eu acho positivo que a comunidade científica comece a voltar-se com mais atenção à importância dos conhecimentos tradicionais. Essa aproximação deve ser feita com cuidado e respeito. A comunidade científica deve dialogar com as comunidades indígenas e locais no sentido de trocar experiências, reconhecer que mesmo um conhecimento que não foi obtido dentro de um laboratório, por pessoas usando jalecos e pipetas, merece ser respeitado.

O cientista que se abre para experiências desse tipo tem muito a ganhar, a começar por expandir sua visão de mundo, ao ver que o mundo tem uma abundância que escapa, e sempre escapará, das mãos de qualquer ciência. Reconhecer que 'outras ciências' são pensadas e praticadas mundo afora, inclusive por indígenas, e que isso é legítimo, é um bom começo. A diversidade da vida pode, e deve, ser interpretada e desbravada por quantas visões de mundo existirem - e isso é valorizar o pluralismo metodológico, os conhecimentos tradicionais, a multiplicidade de saberes.

Espero que esse diálogo entre comunidade científica e comunidades indígenas não perca isso de vista.

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