quarta-feira, 19 de fevereiro de 2014

Um post que mistura Benjamin e o "rolezinho" para falar de divulgação científica

“Trazer para mais próximo de si as coisas é igualmente um desejo apaixonado das massas de hoje”. Embora haja confusão entre cultura popular e cultura de massa em algumas análises que ultimamente tenho lido sobre os “rolezinhos”, trago à tona essa citação de Walter Benjamin, retirada do ensaio A obra de arte na era da reprodutibilidade técnica, de 1936. Enquanto a cultura popular está mais próxima do artesanato, do regional, a cultura de massa (termo hoje questionado) está mais para a indústria cultural, a mesma que retira o funk da favela e o coloca no palco do Domingão do Faustão.

Mas não é de funk que vou falar. Nesse ensaio de Benjamin, no qual fotografia e cinema servem a ele como objeto de análise, há uma brilhante reflexão sobre esse desejo das massas de trazer as coisas para mais próximo de si. Querendo escapar do exemplo dos "rolezinhos", mas não conseguindo, podemos pensar que a “ocupação” de shoppings centers por grupos que historicamente estiveram à margem inclusive do consumo - a alma do capitalismo - representa, em parte, esse desejo: como os shoppings não vão até eles, eles vão até o shopping.

Um exemplo de Benjamin, tomando a literatura, dá uma noção do que representa essa “invasão das massas”. Segundo o filósofo alemão, por séculos a situação da literatura foi tal que para um pequeno número de escritores havia um número multiplamente maior de leitores. No final do século XIX, teve início uma mudança.

“Com a crescente ampliação da imprensa, que colocou à disposição dos leitores novos órgãos políticos, religiosos, científicos, profissionais e locais, grande parte dos leitores - no princípio, esporadicamente - começou a escrever. O início se deu com a abertura da seção ‘Cartas dos leitores’, nos jornais diários. Hoje, a situação é tal que há poucos europeus inseridos no processo de trabalho que, em princípio, não possam encontrar uma oportunidade de publicação de uma experiência de trabalho, uma reclamação, uma reportagem ou algo semelhante. Com isso, a diferença entre autor e público está a ponto de perder seu caráter essencial. Ela se torna funcional, variando em cada caso. [...] A competência literária não se funda mais na formação especializada, mas na politécnica, e, assim, torna-se bem comum”.

Essa outra citação de Benjamin nos remete ao jornalismo, isso é evidente. Mas não só a ele. Assim como a diferença entre autor e público perdeu seu caráter essencial, tanto na literatura quanto no jornalismo, o mesmo podemos dizer que ocorre em outras áreas. Na música, por exemplo. O músico, profissional ou amador, tem à disposição recursos técnicos que lhe permite gravar músicas em casa e disponibilizá-las, sem a interferência, ou mediação, da gravadora.

Assim como a competência literária não se funda mais na formação especializada, como diz Benjamin, a competência jornalística, musical etc. não se funda mais na formação especializada. O território antes especializado, fechado e restrito, hoje cede espaço, muitas vezes à força, à massa - que toma consciência de seu direito de reproduzir-se. Ou seja, o direito de ela reproduzir a si mesma dentro da lógica capitalista.

Para explicar do que se trata esse direito, Benjamin cita a indústria cinematográfica.

Segundo ele, a exploração capitalista do cinema bloqueia a consideração do direito legítimo de ser reproduzido que o homem atual possui. Lá nos anos 1930, Benjamin já apontava que a indústria cinematográfica mobiliava um poderoso aparelho publicitário: colocava a seu serviço a carreira e a vida amorosa dos astros, organizava plebiscitos, convocava concursos de beleza. Tudo isso, diz Benjamin, para falsificar, por um caminho corrupto, o interesse originário e justificado das massas pelo cinema.

E qual é o interesse originário das massas pelo cinema? O fim, digamos assim, é o interesse de autoconhecimento e, com isso, de conhecimento de classe. Essa, portanto, seria a função social do cinema, caso não fosse conduzido por alguns poucos, mas poderosos, capitalistas.

Diz Benjamin: “Vale em particular para o capital cinematográfico o que, no geral, vale para o fascismo: que uma necessidade inegável por nossas condições sociais é explorada secretamente no interesse de uma minoria de proletários”. A desapropriação do capital cinematográfico, assim, é uma exigência urgente do proletariado, afirma Benjamin.

Isso tudo pode ser transposto para a ciência? Talvez, se pensarmos que a exploração capitalista da ciência bloqueia a consideração do direito legítimo que o povo tem de decidir qual ciência ele quer e como direcionar e utilizar o conhecimento gerado pela pesquisa.

Sempre me perguntei, talvez ingenuamente, por que iniciativas de ocupação, desapropriação, conscientização, que ganham força em outros setores da sociedade, não são reproduzidos no campo científico. O povo vai às ruas, quer participar da tomada de decisões econômicas, políticas e sociais; ocupa Wall Street, ocupa ruas, o Palácio dos Bandeirantes, o Planalto, protesta em exposições de arte, faz beijaço gay, panelaço, amamenta em locais públicos que proíbem amamentação em público, confronta, questiona, provoca, ocupa reitorias, faz greve, não aceita abusos morais, racismo. Mas por que tais atitudes nunca, ou raramente, atingem a ciência?

Salvo algumas exceções, motivadas por grupos isolados, como ONGs do tipo Greenpeace, ou grupos que ocupam laboratórios, interrompem pesquisas e resgatam beagles, o fato é que a ciência e suas instituições são templos sagrados em nossa sociedade. Outros templos, de outra ordem, mas igualmente à serviço do capital, como os shoppings, começam a ter seus espaços ocupados pela massa, pelo povo. Mas nesse caso, é diferente: os excluídos apenas querem dizer que desejam fazer parte do jogo, querem participar do baile do consumo, não subvertê-lo.

A ciência, assim como o Estado e a economia, deve ser trazida mais próxima da sociedade. No entanto, essa máxima não pode ser resumida por outra, repetida como mantra pelos defensores cegos da ciência: a de que a divulgação científica democratiza o conhecimento científico. Na verdade, a divulgação científica democratiza o acesso ao conhecimento científico que interessa ser divulgado. Muitas vezes, ainda, a ciência que se passa ao público é um lago calmo, tranquilo, límpido e agradável, quando na verdade está mais para um mar agitado.

A divulgação não deve ser considerada um fim, mas um meio. É tornando público o conhecimento científico que a população pode saber dos resultados da pesquisa científica. Os desdobramentos disso são evidentes: os resultados de uma pesquisa, quando comunicados, entram em contato com outros atores da sociedade, ampliam-se as possibilidades desse conhecimento ser aproveitado, revertido em benefício, ou mesmo enriquecer a cultura local ou global.

No entanto, a divulgação cuja finalidade é apenas transmitir as leis da ciência, apresentar seus resultados e métodos, e não usar isso como meio para discutir as consequências da ciência, pode atuar como alto-falante do capital tecnocientífico. Isso porque existe uma mentalidade tecnocrática, como aponta Hugh Lacey, nas instituições científicas atuais que é responsável pelas tendências correntes de tornar a ciência um tecnociência, que serve a interesses ligados ao capital e ao mercado.

A ciência deve servir ao povo em primeiro lugar - ou seja, ao bem comum. O desenvolvimento de inovações tecnocientíficas pode contribuir para resolver um problema particular, mas provavelmente geram problemas sociais novos e não antecipados. Cabe à divulgação científica, portanto, voltar-se também para esses problemas, discuti-los, como forma de querer mobilizar a sociedade em torno deles. E por isso, é preciso divulgar todas as formas possíveis de se fazer ciência, tendo em vista a multiplicidade de tradições e métodos.

Benjamin mostrou que a indústria cinematográfica falsifica o interesse originário das massas pelo cinema. É preciso observar se também a indústria tecnocientífica não falsifica o interesse originário das massas pelo conhecimento científico.

Leia também o post Ciência para as pessoas, que faz conexão com este artigo.
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