quinta-feira, 27 de março de 2014

O galanteio e o transporte público

1936, centro de São Paulo.
Alfredo, 25, toma o bonde Vila Mariana, na Praça da Sé, rumo ao novo emprego em um escritório de contabilidade. Mal entra no trem, avista sentada na última fileira uma moça tímida, de no máximo uns 20 anos. O vão existente entre Gina, a moça, e o espaço aberto para os passageiros que não tiveram a sorte de seguir viagem sentados é rapidamente preenchido por Alfredo. Apertado entre um homem gigante e suado e outro, menor mas igualmente embebido em suor, Alfredo consegue agachar-se de modo que seus olhos ficassem à altura dos de Gina. Inicia-se uma conversa lenta, no ritmo do bonde. Vê-se Alfredo tirar o chapéu, coçar a cabeça, sem jeito. Vê-se Gina corar, e sorrir acanhada. Alfredo, então, arranca uma rosa das mãos de um florista que passa rente ao bonde, e oferece a Gina. Desceram no mesmo ponto, sem que Alfredo percebesse que não havia ainda chegado ao seu destino. Dali a algumas semanas, finalmente deram-se as mãos. Casaram e tiveram três filhos: Lúcia, Maria Clara e João.

1974, estação Jabaquara do metrô, São Paulo.
É 16 de setembro, dia da primeira viagem de metrô feita em São Paulo aberta ao público. Roberto, 33, engenheiro, entra no vagão, maravilhado. Ao seu lado, entra Mônica, 28, jornalista em plantão. Mônica senta-se de frente a Roberto, que a observa com insistência. Ele puxa assunto, logicamente sobre a inauguração do metrô na cidade, realizada dois dias antes apenas com a participação de autoridades. "É rápido, né"?, comenta Roberto, sobre a velocidade do trem. A partir daí, a conversa seguiu um ritmo mais intenso, marcada pela oscilação do volume das vozes de Roberto e Mônica, ora aumentando, ora diminuindo, de acordo com os ruídos provocados pela corrida do trem túnel adentro. Roberto elogiou a inteligência de Mônica, depois o vestido azul dela. Marcaram de tomar um café, um tempo depois namoraram, casaram e divorciaram-se. Pelos filhos, continuaram amigos.

2014, estação Sé do metrô, São Paulo.
Insatisfeito com a monotonia dos sites pornográficos, a solidão e o governo, o estudante de engenharia Fernando, 21, vai até a estação do metrô, sem rumo. No vagão, avista Cinthia, 22, uma jovem estagiária de direito. Fernando tem a opção de sentar-se, mas prefere posicionar-se ereto ao lado de Cinthia, que está sentada ouvindo música. Fernando decide livrar-se da tristeza e da ansiedade sacando de dentro de sua calça jeans o pênis e, como quem carrega uma pistola Walther PPK, aponta-o em direção ao braço esquerdo de Cinthia, que ao perceber o contato grita de pavor. Fernando e Cinthia têm planos de morar juntos ainda este ano.

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