terça-feira, 14 de outubro de 2014

A Igreja e os inimigos da ciência

Em janeiro de 2008 o então papa Bento 16 foi impedido de proferir uma aula inaugural do ano letivo na Universidade La Sapienza, em Roma, por um grupo de professores e estudantes. Eles alegavam que em 1990, o papa, que ainda atendia como cardeal Ratzinger, havia cometido um sacrilégio ao declarar que o tratamento dado a Galileu Galilei perante o Santo Ofício da Inquisição "foi razoável e justo". 

A declaração de Bento 16 sobre a condenação de Galileu pela Igreja tinha como referência a epígrafe do capítulo 13 de Contra o Método, a obra mais famosa e polêmica do filósofo da ciência Paul Feyerabend - ele também um "inimigo da ciência", segundo cientistas ortodoxos, por defender uma epistemologia anárquica. 

 Nesse livro, o filósofo afirma que a Igreja, na época de Galileu, “não apenas conservou-se mais próxima à razão tal como esta era definida então e, em parte, mesmo hoje: também considerou as consequências éticas e sociais das ideias de Galileu. Sua indiciação de Galileu foi racional, e somente oportunismo e falta de perspectiva pode exigir uma revisão”.

Feyerabend tentou mostrar que a ideia do movimento da Terra, defendida por Galileu, era na época “tão absurda como o foram as ideias de Velikovsky quando comparadas com os fatos, teorias e padrões dos anos 1950”. Para Feyerabend, o embate entre Galileu e a Igreja foi apenas um de tantos embates que ocorreram na ápoca, entre especialistas e uma instituição que defendia uma visão ampla das coisas - mas que se tornou uma batalha entre o céu e o inferno. 

Para o pesquisador Paulo Terra, a Igreja arquitetou, nos últimos anos, uma estratégia para acomodar os progressos teóricos científicos com a filosofia cristã. “Com essa articulação, a Igreja parece claramente tomar posição ativa relativamente à cultura contemporânea”, o que significa combater posturas ideológico-filosóficas que foram ao longo do tempo acolhidas no meio acadêmico. 

Parte desse estratégia consistiu em desconstruir a imagem de Galileu como a de um herói que luta contra o obscurantismo, representado pela Igreja. “Em contraposição a esse herói, apresenta-se um outro, este sintonizado com a visão católica, que serve de modelo aos cientistas, católicos ou não, que atua como guia na solução dos complexos e numericamente crescentes pontos de interesse comum entre a ciência e a religião”, diz Terra. 

Assim, a análise de Feyerabend sobre as ideias de Galileu, e o embate com a Igreja, vem no sentido de conciliar a faceta investigadora e teórica de Galileu com algumas ideias católicas, representadas pelo cardeal Roberto Bellarmino, com quem o pensador trocou cartas. Nesse ponto, Galileu é apresentado como alguém que falhou na tentativa de articular suas ideias com a linha de pensamento do grande grupo cultural da época - o mundo cultural católico - ao qual ele próprio pertencia. 

Mas aparte a discussão que se faz a respeito da existência de um Galileu anticatólico e de um Galileu católico, Feyerabend empenhou-se na tarefa de mostrar que mesmo o Galileu dos cientistas precisou utilizar de métodos na época considerados como “não científicos” para avançar em suas teorias.

Em sua trajetória, Galileu recorreu a uma série de recursos, e também a seu prestígio pessoal, para transformar o conceito heliocêntrico numa ferramenta capaz de combater o sistema aristotélico-ptolomaico e toda a estrutura cultural que o circunscrevia. Na introdução de Diálogo sobre os dois máximos sistemas do mundo ptolomaico e copernicano, de Galileu, o filósofo Pablo Rubén Mariconda explica que, em resposta à cultura contrarreformista baseada na intolerância religiosa, no início dos anos 1600, Galileu se empenhou numa vigorosa defesa da liberdade da pesquisa científica e da universalidade da razão. 

Tal iniciativa tinha o propósito de delimitar o campo científico a um campo disciplinar considerado autônomo, livre dos critérios externos de autoridade, “sejam eles provenientes da teologia ou da filosofia natural”. É a partir desse momento, portanto, que assistimos aos primeiros esforços no sentido de desvincular o pensamento científico da teologia e da filosofia natural.

O importante dessa história toda é saber identificar a seguinte mensagem: o apoio incontestável e desmedido a tudo aquilo que se diz científico e que promete trazer o progresso e o esclarecimento é tão cego quanto uma fanatismo religioso. 

Mesmo a Igreja adotava uma posição no sentido não de ignorar a ciência, mas exigir dela provas contundentes que comprovassem suas hipóteses. Caso contrário, por que revisar os ensinamentos da Bíblia? Embora muitas passagens do livro sagrado sugerissem uma Terra plana, a doutrina da Igreja aceitava a Terra esférica como um fato evidente. 

Para Feyerabend, portanto, a Igreja não estava disposta a mudar por causa de conjecturas vagas; ela queria que os assuntos científicos apresentassem provas científicas. Um atitude, aliás, que não é muito diferente da adotada por instituições de ensino e pesquisa modernas, que esperam por um longo tempo antes de aceitar e incorporar novas ideias. “Não havia nenhuma prova convincente da doutrina copernicana. Consequentemente, Galileu foi aconselhado a ensinar Copérnico como uma hipótese; foi proibído de ensiná-lo como uma verdade”

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