quinta-feira, 8 de janeiro de 2015

A escola e a atualidade de Ivan Illich

Revisitando Sociedade sem Escolas (1971), do pensador austríaco Ivan Illich (1926-2002), me deparo com a seguinte afirmação:

Como diz [o economista britânico] Arnold Toynbee, a decadência de uma grande cultura vem geralmente acompanhada do surgimento de uma nova Igreja Universal que dá esperanças ao proletariado doméstico e ao mesmo tempo satisfaz as necessidades de uma nova classe guerreira. A escola tem todas as características para ser a Igreja Universal de nossa decadente cultura. Nenhuma outra instituição conseguiria esconder tão bem de seus participantes a profunda discrepância entre os princípios sociais e a realidade social do mundo de hoje. Secular, científica, nega a morte: identifica-se com as aspirações modernas. Sua fachada clássica e crítica faz com que se pareça pluralista ou até
anti-religiosa. Seu currículo define ciência e, ao mesmo tempo, é definido pela assim chamada pesquisa científica. Ninguém nunca termina sua escolarização — ainda. A escola nunca fecha suas portas para alguém sem antes oferecer-lhe mais uma chance: estágios de recuperação, atualização, etc.

Para Illich, a escola em tempos modernos (ou pós-modernos) se presta ao papel de criar e sustentar o mito social, por causa de sua estrutura que funciona como um "jogo ritual de promoções gradativas". Assim, neste esquema, é mais importante fazer parte do ritual, do que de fato compreender profundamente o que é ensinado. A escola moderna é, segundo Illich, "um rito de propiciação onde os sacerdotes acadêmicos são os mediadores entre o fiel e os deuses do privilégio e do poder; um rito de expiação que sacrifica os que abandonaram o curso fazendo deles os bodes expiatórios do subdesenvolvimento".

Mais adiante, o autor afirma:

Enquanto o indivíduo não estiver explicitamente consciente do caráter ritual do processo pelo qual foi iniciado às forças que modelam seu cosmos, não poderá quebrar o encanto e criar a imagem de um novo cosmos. Enquanto não estivermos conscientes do rito pelo qual a escola modela o progressivo consumidor — principal recurso da economia — não poderemos quebrar o encanto dessa economia e formar uma nova.

O que Illich propõe, entre outras coisas, é uma nova orientação da educação e das pesquisas. Ou seja, que o conhecimento (científico e não-científico) pare de ser embalado como se devesse ser entregue ao consumidor (no caso, o aluno) - uma visão tecnocrata da educação. Nesse contexto, a liberdade oferecida pela escola se resume à oferta de "pacotes", previamente fabricados e empacotados - conteúdos institucionalmente tratados, cuidadosamente dosados e compartimentados. 

A "nova escola", assim, é aquela que valorizaria mais os resultados imprevisíveis do que a qualidade dos certificados de instrução profissional.

Esta reorientação para as surpresas pessoais em vez de valores institucionalmente arquitetados romperá a ordem estabelecida até que dissociemos a crescente disponibilidade de instrumentos tecnológicos que facilitam os encontros do progressivo controle, feito pelos tecnocratas, sobre o que acontece quando as pessoas se encontram.

Penso assim que o conhecimento científico em si é emancipador. Contudo, a institucionalização tecnocrata do conhecimento impede inclusive que o conhecimento científico restabeleça contato com outras formas que dão sentido à vida - e talvez esta devesse ser uma das funções da escola: promover conexões perdidas.

Essa missão poderia, aliás, voltar-se para a própria ciência, e colocá-la mais próxima do campo humano e cultural. A psicanalista Maria Rita Kehl diz no livro O Tempo e o Cão que "a possibilidade, ou pelo menos o desejo, de domínio do real teria deixado o homem renascentista diante da perda do sentido metafísico do mundo". Ou seja, o enfoque racionalista de séculos passados, no sentido de captar a realidade fiel do mundo e das coisas, teria levado o homem a perder o senso metafísico do mundo, um processo de desencantamento da vida. 

Segundo Kehl, a partir do Renascimento, o sujeito moderno nunca mais deixaria de se sentir vacilante em razão dessa perda de um saber que a ciência não é capaz de reconstituir. 

A busca por um conhecimento científico, cuja totalidade é inalcançável, leva a um estado de mal-estar na civilização. A trajetória linear e progressiva da escola moderna deve ser substituída por uma estrutura mais relacional, que, como diz Illich, capacite o homem a definir-se a si mesmo pela aprendizagem e pela contribuição à aprendizagem dos outros. Nessa estrutura, a ciência conecta-se novamente com a intuição. E, portanto, razão e intuição readquirem sua importância como formas de perceber e a realidade e integrar nossa subjetividade com o ambiente externo. 



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