quinta-feira, 5 de fevereiro de 2015

O conhecimento está aí

Sempre me irritei com pessoas passivas, daquelas que esperam a solução cair do céu enquanto se lamentam da vida. Compreendo que em alguns casos a passividade funciona como um mecanismo de defesa em momentos de grande dificuldade ou trauma, como quando ocorre uma descarga de adrenalina tão forte que desmaiamos. Descartados os casos provocados pela depressão e outras patologias, a passividade tem mais a ver, penso eu, com o modo que algumas pessoas escolhem para levar a vida. Desde cedo, são condicionadas a seguir pela via mais simples e, pior ainda, a não sair da zona de conforto quando necessário. A responsabilidade, no entanto, não deve recair apenas sobre a família. A conta é para ser dividida também com outros setores da sociedade que ajudam a definir quem somos: escola, trabalho, universidade etc.

A passividade é destruidora de lares. Ela pode acabar com relacionamentos amorosos, fraternais e profissionais, quando uma das partes não reage diante da vida. O outro se vê frustrado diante da falta de atitude do passivo, que por sua vez pode ficar duplamente frustrado ao tomar consciência de sua imobilidade e falta de poder de decisão. Acredito, no entanto, que os maiores prejuízos da passividade (enquanto cultura) são observados na relação que estabelecemos desde cedo com o conhecimento.

Na escola, salvas algumas exceções, o conhecimento é transmitido de forma linear, do professor ao aluno. Com o passar do tempo, abrem-se oportunidade de debates em cima de alguns temas, mas as grades curriculares continuam pré-estabelecidas. A fase que antecede a escolha de uma profissão mostra ao aluno poucas alternativas: “agora chegou a vez de escolher o que você quer fazer pro resto da vida. E aí, o que será?”. Incute-se na cabeça do jovem que toda a riqueza de conhecimento que a humanidade levou séculos para talhar pode ser perfeitamente comprimida dentro de três grandes “áreas”: biológicas, exatas e humanas.

Na minha época de cursinho, eu literalmente tinha um crachá com meu nome, meu número de matrícula e minha “área”, no caso humanas. Aquilo me dava uma tristeza sem tamanho, porque no meio de uma empolgante aula de biologia - que sempre gostei - eu me pegava olhando pro crachá e dizendo pra mim mesmo: “ei, cara, acorda! Você é de humanas, não vai trair o movimento!”, ou coisa do tipo.

É engraçado, porque eu sempre gostei de biologia, mas também sempre me dei bem com sociologia, filosofia, história. É uma violência moral dizer a um aluno do ensino médio que ele terá que fazer uma escolha: ou biologia, ou geografia. Tal qual o filho que, diante do divórcio dos pais, precisa decidir com que vai ficar - sendo que na visão dele os dois formam um todo indivisível. “Mas eu quero os dois!”; “Não, não pode. Escolha uma área”. Malditas áreas! Depois, lá na frente, na faculdade, num curso de “humanas”, alguém tenta reparar esse dano em você, ao apresentar conceitos de complexidade, de pós-modernidade, uns autores loucos que dizem que tudo pode ser nada e nada pode ser tudo e que tudo está interligado e tal.

Besteira. Já era. O trauma foi instalado: aprendemos a lidar com o conhecimento de forma passiva, acreditando que uma vez instalado numa área do conhecimento, não há nada o que possamos fazer para mudar isso, a não ser recordar com nostalgia aquelas saudosas aulas de biologia da Fumiko na época do colegial. Fumiko era o nome da minha professora de biologia no colegial.

Aí que está o erro. Em pensar que uma ficção, uma abstração tão artificial quanto o passar das horas no relógio, pode determinar nossas vidas profundamente. Na minha concepção, entendo que existem dois níveis de relação que estabelecemos com o conhecimento: aquele conjunto de saberes que utilizamos ao longo de nossas carreiras profissionais - a que damos o nome de profissão - está na superfície, é apenas a ponta do iceberg. O nível mais profundo, mais complicado de acessar, é aquele onde podemos religar o ceú e a terra, profanar contra modelos e regras de segregação do conhecimento fixados pela educação.

Sair da zona de conforto significa ver o conhecimento sem repartições, sem baias que o separam por áreas. A classificação em disciplinas é apenas uma ferramenta que usamos para organizar o conhecimento, mas que não deveria ser utilizada para defini-lo. Na condição de jornalista de ciência, eu não preciso manter-me sempre na zona da comunicação com interfaces para a ciência. Por que não mergulhar de vez numa disciplina científica? Na condição de gestor de RH que lida com testes psicológicos, por que não jogar-se de vez em campos da psicologia? Por que pensar que migrar ou transitar para outra “área” é mais difícil que parece? Que é um caminho sem volta?

É evidente que um biólogo não vai, do dia pra noite, virar doutor em linguística apenas porque tem apreço pelas letras. E aqui eu sequer entro na discussão sobre titulação. Aliás, sequer me refiro às chamadas inter e multidisciplinaridade. O biólogo pode muito bem frequentar disciplinas de linguística num curso da USP, por exemplo, ou de qualquer outra universidade pública, simplesmente porque gosta, porque tem vontade - quase que para alimentar um impulso vital que o faz desejar conhecimento novo. Oficialmente, ele não será aluno do curso de letras, mas terá acesso ao conhecimento assim como os alunos que passaram no vestibular em letras. Ao final de um semestre, ou um ano, ele será um biólogo satisfeito por compreender a linguística.

Em 2013, eu queria muito aprender mais sobre filosofia da física. Eu cursei física? Não. Filosofia? Também não. Mesmo assim, entrei no site do curso de filosofia da USP, busquei a disciplina sobre o assunto na grade curricular, entrei em contato com o professor e o avisei que passaria a frequentar, toda semana, suas aulas. Ao longo de um ano inteiro, compareci ao curso de filosofia da física, que na verdade faz parte da grade curricular da graduação em física da USP. Fiquei tão envolvido com o curso que cheguei até a apresentar um seminário, deixando bem claro aos colegas de classe que eu não era da área de física e que, portanto, perdoassem qualquer gafe. Todos levaram na boa. Quando eu tinha dúvidas sobre algum conceito específico da física teórica, eu pesquisava por conta própria ou mandava e-mail para o professor - para não interromper a aula com questões que soariam básicas para os demais.

Posso dizer que me tornei especialista em filosofia da física? Evidentemente que não. Mas a experiência abriu portas: descobri um autor que depois me foi extremamente útil no mestrado. Além disso, pude me desfazer de preconceitos que eu tinha sobre a física, uma disciplina que nunca fez meu gosto na época de colégio.

É preciso saber que o conhecimento está aí, esperando por nós. As universidades públicas estão igualmente aí, abertas, e podem ser frequentadas por qualquer um. Esse exercício de vasculhar outras áreas, quebrar preconceitos arraigados e tomar consciência da abundância do conhecimento humano (não de “humanas”) deveria ser incentivado nas escolas com a mesma intensidade que se cobra do aluno um posicionamento objetivo sobre a qual área ele quer ser acorrentado até o resto da vida. 

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