sexta-feira, 6 de março de 2015

Do alto de um eucalipto transgênico

De um lado, cientistas e empresas fazendo pesquisas para desenvolver um eucalipto transgênico, capaz de aumentar a produtividade de celulose e diminuir o ciclo de corte de 7 para 4 ou 5 anos. Do outro, ambientalistas e militantes do Movimento dos Trabalhadores Rurais sem Terra (MST), com respaldo de uma parcela da comunidade científica que chama atenção para os possíveis impactos que o novo produto pode ter sobre o meio ambiente e a saúde humana. No meio disso, a população, tentando identificar quem são os mocinhos e os vilões nessa história.

O grupo dos favoráveis à pesquisa com eucalipto transgênico argumentam que, além de aumentar a produtividade de celulose (usada não só para a produção de papel, mas também para a obtenção do etanol celulósico, chamado de segunda geração), a nova planta é desenvolvida desde 2001 e passa por avaliações rigorosas em campo desde 2006. No início do ano passado, foi submetida à análise da Comissão Técnica Nacional de Biossegurança (CTNBio), responsável pela avaliação de risco e estabelecimento de normas e regulamentos sobre a utilização de organismos geneticamente modificados, utilização de técnicas de engenharia genética, etc.

O grupo contrário ao desenvolvimento do eucalipto transgênico argumenta, entre outras coisas, que a aplicação da planta pode levar à destruição da biodiversidade local, substituindo-a por uma única espécie. Para o geneticista Paulo Kageyama, professor da USP e representante do Ministério do Meio Ambiente na CTNBio, esse tipo de eucalipto também pode afetar a água, pois segundo ele a redução da rotação de corte das árvores para 4 ou 5 anos geraria impacto nas microbacias.

Kageyama afirma que a empresa responsável pelas pesquisas, a FuturaGene Brasil, do grupo Suzano Papel e Celulose, não realizou estudos essenciais para avaliar os reais riscos. Em entrevista ao site do MST, o pesquisador da USP ainda diz que o eucalipto transgênico tem várias falhas, mas a principal dela é a contaminação do mel. "Só no ano passado, o Brasil produziu 16 mil toneladas de mel de eucalipto. A produção será contaminada após a liberação do transgênico", disse ele.

Nesta semana, a CTNBio iria aprovar a comercialização do eucalipto transgênico, mas a decisão precisou ser adiada após aproximadamente mil mulheres ligadas ao MST e militantes de outros movimentos sociais do campo ocuparem a empresa FuturaGene Brasil, do grupo Suzano Papel e Celulose, na cidade de Itapetininga, em São Paulo. Lá, destruíram mudas que vinham sendo estudas, resultado de mais de 14 anos de pesquisas. Paralelo a isso, outro grupo de manifestantes ocupou a reunião da CTNBio.

Claramente, temos duas vertentes: a turma da pesquisa, que reconhece que a ciência ainda não é capaz de prever ou explicar os impactos ambientais e sociais das culturas transgênicas, mas argumenta que sem correr riscos a ciência e o desenvolvimento não avançam; e a turma que defende uma posição mais cautelosa da ciência diante das incertezas, ou seja, se não podemos saber dos reais riscos que o novo tem, então melhor não botar em prática.

Este último grupo, dos movimentos sociais, ambientalistas e parte dos pesquisadores, acredita que aqueles que estão na ponta dos processos de pesquisa, trabalhando nos laboratórios, não tem consciência dos impactos sociais que suas ações acarretam, muito menos das causas sociais que os levam a fazer esse tipo de pesquisa. Seriam, portanto, uns cientistas alienados, trabalhando à serviço do capital (grandes grupos empresariais).

O primeiro grupo, dos pesquisadores que defendem a pesquisa com transgênicos, argumentam que os manifestantes fazem suas críticas tomados por motivações ideológicas e política, desqualificando o rigor do método científico, os dados e o fato de que, hoje, não é possível haver desenvolvimento econômico sem o investimento em técnicas capazes de fazer aumentar a produtividade agrícola. Basicamente, como diz um comunicado da Sociedade Brasileira para o Progresso da Ciência (SBPC), protestar contra a pesquisa científica representa “a expressão mais atrasada de posicionamentos baseados em ideologias políticas ao arrepio do conhecimento científico”.

Penso que os dois lados acertam e erram em alguns pontos.

No caso da comunidade científica, o acerto está em continuar fazendo o que se espera dela: que faça pesquisa. Seria estranho ver a comunidade científica parada, em estado de introspecção pura, mergulhada numa profunda reflexão sobre si mesma e sobre seus atos. Ao distanciarem-se do que chamam de “posições ideológicas” e “discussões políticas”, e se convencerem de que existem razões científicas reais, e não apenas “causas” sociais, os cientistas colocam em prática seus métodos, com os quais, há tempos, conseguem obter resultados satisfatórios – para o bem e para o mal. É assim que chegam a vacinas, novos medicamentos, novos materiais, energia mais limpa e renovável, etc.

O erro está ao elevarem isso à décima potência e permanecerem extremamente fechados ao social. Não podemos dizer que pesquisadores que atuam na transgenia e na engenharia genética sejam verdadeiros alienados em relação ao que fazem. Por conhecerem o que há de racional e as condições técnicas que possibilitam a prática científica, tendem a defender que o que fazem é algo racionalmente aceitável. Mas também conseguem minimamente alimentar uma percepção sobre os desdobramentos que fazem. Há inúmeros casos de cientistas que desenvolvem verdadeiras análises sobre as consequências da pesquisa que lideram. 

No entanto, a falta de diálogo com os movimentos sociais e comunidades tradicionais contribui para alargar mais essa lacuna entre sociedade e ciência. Ao não compreender a ciência como uma cultura, a sociedade em geral a reduz como mera técnica, instrumento utilizado de forma perversa pelo capital. Isso de fato ocorre, quando falamos de tecnociência como consequência da ciência capitalista. No entanto, a ciência é maior do que os interesses que agentes externos têm em relação a ela.

No caso dos movimentos sociais, o acerto está em fazer o papel de levantar debates na sociedade sobre os limites da ciência. Um erro dos pesquisadores é pensar ser suficiente o fato da ciência ser avaliada por seus membros, por quem a faz. Isso está correto quando falamos de uma teoria ou hipótese ser testada ou aferida por cientistas – como muitos autores mostram, uma característica da ciência é sua falibilidade, ou seja, a ciência falha, suas teorias estão o tempo todo sendo testadas e algumas sendo substituídas por outras (nem tudo na ciência é definitivo). 

Mas a ciência é também constantemente avaliada por agentes externos, que em vez de se aterem mais ao conteúdo das teorias, observam seus efeitos no âmbito social. Portanto, afirmar que tal protesto é mera discussão ideológica ou um “ato medieval” e retrógrado, é demonstrar pouca sensibilidade para compreender as tramas que levam àquele tipo de protesto ou manifestação. Por mais que haja dados empíricos, a complexidade do fato científico nunca poderá ser compreendida sem também se levar em conta as conexões que eles estabelecem com as demandas, expectativas e valores de uma sociedade.

O erro desses movimentos é parecido com o erro dos cientistas. Fecham-se numa linha de pensamento que tende a excluir outras formas de compreensão da realidade. Relacionar a pesquisa com transgênicos apenas a grandes e suspeitas empresas, como a Monsanto, é simplista. Vacinais usam da técnica de transgenia. Vidas são salvas graças à pesquisa genética. A técnica em si que possibilita os transgênicos não é o problema, mas sim a aplicação dela. 

Os movimentos sociais cumpram seu papel ao questionar e divulgar problemas relacionados à pesquisa com transgênicos. E justificam a violência adotada algumas vezes como sendo o único meio possível para chamar atenção da população de forma ampla. O problema para eles é que o discurso científico está consolidado na sociedade: quem se coloca contra a ciência, se coloca contra Deus. Interromper o andamento de uma pesquisa e destruir um laboratório comove a sociedade tanto quanto o assassinato brutal de uma criança indefesa. Portanto, os movimentos sociais optam pela estratégia errada.

Para promover debates sobre os limites da ciência, é preciso criar canais de diálogo primeiro com a sociedade, por meio da comunicação nas redes sociais. Depois, buscar participação em reuniões da CTNBio, em debates no Congresso em torno de projetos em votação, criação de mutirões para informar a população dos riscos de uma pesquisa etc. Mas ao promover ataques como o que vimos esta semana, os movimentos acabam ajudando a consolidar ainda mais no discurso da grande mídia essa suposta faceta arcaica e medieval.

Diante disso tudo, acho necessária a reflexão sobre algumas questões: o fato da ciência deter um conhecimento e saber como aplicá-lo na forma de técnica prediz a autorização para colocá-lo em prática? Qual o peso que a ciência tem em nossa sociedade, a ponto de afirmar que toda a sociedade tem que correr os riscos que acompanham suas atividades, sem os quais ela, a ciência, não pode seguir em frente? Quem deve decidir se queremos correr riscos, mesmos que hoje os dados digam que não há riscos: apenas os pesquisadores ou toda a sociedade?













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