terça-feira, 3 de março de 2015

E a regulamentação da indústria de bebidas alcoólicas?

Em 2013, uma reportagem da Agência FAPESP mostrava que metade da população brasileira se encontrava abstêmia. Na outra metade consumidora de álcool, porém, houve um aumento de 20% do número de pessoas que bebem com frequência - uma vez por semana ou mais - nos últimos anos. Só na população feminina, mais suscetível aos efeitos maléficos do álcool, o aumento foi de quase 35%. Os dados são do II Levantamento Nacional de Álcool e Drogas (Lenard), organizado pelo médico Ronaldo Laranjeira, coordenador da Unidade de Pesquisa em Álcool e Drogas da Faculdade de Medicina da Universidade Federal de São Paulo (Unifesp).

Esses são os dados mais recentes que mostram o quanto o aumento do consumo de álcool é um indicativo preocupante para a saúde pública. Isso porque 20% dos adultos que mais bebem consomem 56% de todo o álcool vendido no país, e a maioria desse grupo é composta por homens jovens, com menos de 30 anos, como o estudante Humberto Moura Fonseca, de 23, que ganhou as páginas de jornais e sites de notícia esta semana,ao morrer após a ingestão excessiva de álcool em uma festa universitária.

Na reportagem de Karina Toledo, da Agência FAPESP, Laranjeira afirma que o padrão do brasileiro é o de beber fora de casa, em ruas e bares, de forma excessiva. "Os jovens bebem para ficar bêbados e isso aumenta muito o risco de prejuízos à saúde e de envolvimento com violência, drogas e outros comportamentos de risco. A ideia que a indústria do álcool tenta passar, de que no Brasil todo mundo bebe um pouco, não é verdadeira”, disse ele.

A ciência mune o poder público de dados e informações incontestáveis sobre os prejuízos causados pelo álcool. São campanhas e mais campanhas divulgadas na mídia alertando a população para o consumo responsável - como se o bebedor compulsivo, ou que bebe com frequência, fosse se sensibilizar com simples recomendações. A questão é mais complexa e não se resolve no campo da publicidade, apenas. Há de se cortar na carne, que é a indústria do álcool. E para isso, os governos precisam de coragem para enfrentar grandes grupos empresariais do setor, como a Ambev.

Limitar a propagando de bebidas para após às 20h é pouco. Inserir um mero "beba com moderação" ao final de um comercial machista, sexista e que relaciona o álcool a hábitos saudáveis e felizes é pouco. É um "lavo minhas mãos" descarado da indústria e do Estado. Mais do que tudo isso, é preciso a regulação da venda de bebidas alcoólicas. Essa, por exemplo, é uma das propostas da Frente Ampla, a coligação de partidos de esquerda que atualmente governa o Uruguai e da qual faz parte o ex-presidente José Mujica. No ano passado, o governo uruguaio propôs, dentre outras coisas, o aumento do controle sobre a publicidade e os pontos de venda de álcool. Outra proposta é a proibição dos "happy hour", quando as bebidas são comercializadas com preços mais baixos. No Brasil, uma boa medida seria proibir que empresas patrocinassem eventos universitários, como aquele do qual participou Fonseca.

No site da Ambev, há um link chamado "consumo responsável". Nele, a empresa diz que conta com um "time de responsa" treinado para "estimular o cumprimento da lei que proíbe a venda de bebidas alcoólicas a menores, além de promover a segurança viária e incentivar o consumo moderado".

O que a Ambev precisa saber é que para pessoas alcoólatras, uma gota de álcool é o suficiente para provocar uma tempestade infernal. Pedir para o alcoólatra, ou para a pessoa com potencial para desenvolver o alcoolismo, beber moderadamente é dar soco em ponta de faca. O que se deve fazer é evitar que essa população de risco tenha acesso (fácil) à bebida. 

Impedir totalmente a comercialização de álcool é evidentemente algo impossível, afinal muitas pessoas não têm problemas com a bebida, têm consciência de seus limites e do momento certo para parar. Mas tornar o acesso ao álcool mais controlado pode reduzir as chances dos mais vulneráveis se acabarem literalmente por causa de uma(s) cerveja(s).

Nas festas por aí, regadas a vodka, alguns se salvam. Outros se revelarão alcoólatras compulsivos. E outros continuarão preferindo morrer de vodka do que de tédio.

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