sábado, 11 de abril de 2015

Esperança do vazio

Tento abrir o máximo possível da janela: quero ver para além do que já enxergo. Ter um panorama do que me cerca. A abertura da janela obedece a um limite, só me permite ver do mundo aquilo que está contido na área que ela enquadra. Eu vejo o que me permitem ver. Há luz do sol e vento frio que entra, mas lá fora está quente. Olhar através da janela é uma coisa real, mas olhar pela janela é a mais pura ilusão. Camus uma vez observou e anotou: uma nuvem que passa e instante que desbota.

O tempo que passa diante da janela é uma construção? O que faz dele um tempo e não outra sensação? O que busco lá fora é algo que superou os homens mas não supera a si mesmo. É uma entidade que manifesta, a cada instante, sua insatisfação consigo mesma. Busco unir-me a isso, tal qual uma presa aceita, no fim das contas, unir-se ao predador, para que juntos sejam protagonistas da tristeza que é a harmonia do mundo. Uma harmonia que, para acontecer, destrói. Toda construção deixa sequelas. A janela, como a caça, é uma construção. Um buraco construído para me pôr em dia com o mundo. Não somos nada sem buracos.

Tento abrir o máximo que consigo a boca, para que por ela entre o tanto de ar que preciso. Eu deveria ser paciente, mas é tempo de romper. Com o que? Com os desafios, com as estratégias, com a defensiva, com a compaixão. Tudo o que sufoca nossa gente, da janela posso ver. Uns andam apressados, outros diminuem o ritmo mas dobram a atenção: um carro avançou no vermelho. Num tempo atrás, buscávamos ar puro; agora, ansiamos desesperadamente por apenas ar. Ar, aqui, compreendido na sua forma mais literal possível, mas também na sua forma mais poética impossível. Um ar que nos garanta a concentração, não para fins profissionais: para fins pessoais. É como se de nossas dores espirituais sobrasse apenas a alternativa de viver preso a uma esperança volátil. Somente em relação às dores que comprometem a produção material e intelectual é que nos permitissem recorrer às máscaras de oxigênio.

A luz se infiltra, recomponho-me. Reconsidero a possibilidade de somente existir e nada mais. Recupero o passo, antes perdido numa esteira que me levava ao precipício da inocência. Redescubro nos ruídos esquecidos o som de mim mesmo, a voz in natura. Desligo tudo conectado e reconquisto minha visão. Tateio, toco, sinto. Subo no mais alto cume e vejo do alto que, durante esse tempo todo, não havia coisa alguma acima de nós. Nada. Nem nos protegendo, nem nos amaldiçoando. Eu fico à vontade diante dessa sinceridade.

É tempo de esvaziar, de deixar espaços incompletos, de permitir ao outro que fique a sós com seu silêncio. Esvaziar mitos, esvaziar conceitos gastos, espaçar, esquecer. O desespero nos faz enfiar as coisas umas dentro das outras, ligar pontos que não precisavam ser ligados - nessa ânsia instaurada de conectar acima e abaixo de tudo. Se eu tivesse que escrever aqui um livro sobre o contemporâneo, ele teria duzentas páginas, e cento e noventa e nove estariam em branco. Na última, apenas uma provocação diante do absurdo: fez sentido tudo isso?


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