quinta-feira, 2 de abril de 2015

Reflexões sobre o ocupar e o desocupar (1)

Há tempos penso no ato de ocupar. O valor político da ocupação carrega em si a ordem da transformação: dar outro significado ao espaço. Pessoas ligadas a movimentos sociais que ocupam uma propriedade inativa. Dar uma destinação social ao lugar até então fadado à inércia improdutiva do indivíduo. Ocupação também é defesa. A Constituição Federal de 1988 garante a ocupação do território nacional por parte da união.

É natural que se ocupe. Tudo a nossa volta ocupa um espaço, e matéria é tudo o que ocupa um espaço. O que tem massa ocupa, inclusive o átomo. Mas também ocupa espaço um pensamento, um fato da ficção - materializados na forma de intervenção.

A ocupação quer chamar atenção, corrigir, direcionar, conclamar, rejeitar, iluminar, lembrar, ser lembrada, marcar, impor, indignar, reivindicar. Ocupa-se o senso comum para implodi-lo de senso crítico. Um edifício tomado, uma reitoria ocupada, as ruas que cedem espaço para bicicletas, manifestantes instalados em locais onde geralmente não há gente. Instabilizar o tecido urbano e ver a cidade de outros pontos de vista. Não só ocupar o espaço público, mas também o privado. Espaços construídos para fins particulares, que ocupam espaços públicos - a saída é dar um significado público também para torres privadas.

Ocupar não é fazer-se presente, apenas. Exige concentração: de ideias, de pessoas, de objetivos, de desejos. E também realocar e permutar. Tirar o debate político da universidade e recolocá-lo na rua. Pegar a poesia dos sótãos e colocá-la na estação de metrô. Emprestar um pouco do pensamento científico aos artesãos e estes levarem novas perspectivas ao laboratório. Permitir que as escolas sejam ocupadas pelo livre pensar e que o livre pensar sejo ocupado pela sociedade.

Mas tão importante quanto ocupar é desocupar. Pouco fala-se das desocupações necessárias.

Desocupar o Estado de deus. E desocupar a Igreja dos ateus. O ato de desocupar é também carregado de significados. O excesso de ocupação do tecido urbano pode levar à banalização do vazio. E o vazio é tão importante quando o movimento. Espaços desocupados, quando compartilhados moderadamente, tornam-se refúgios para a mente.

Espaços de silêncio, onde o silêncio torna-se anárquico. Espaços sem nitidez, onde a nitidez do pensamento é valorizada. Não-estar também é necessário.

Não se fazer presente nas ideias vazias. Não se fazer presente no senso comum e deixar que o infame pereça. Nem tudo nos cabe. E nem tudo nos quer. Sendo parte da natureza e sem consciência disso (tomado pela visão binária sujeito-objeto), o homem a ocupou de tal forma excessiva, que hoje é preciso desocupar a natureza do homem.

É preciso desocupar lugares, para conhecer outros. É preciso desocupar conceitos de outrora e fazer florescer conceitos do agora. É preciso desocupar nós mesmos, para finalmente sermos ocupados pelo mundo tal como ele se apresenta. Queremos ocupar, mas não nos permitimos nos desocupar.

A ocupação desestabiliza, quebra monopólios. O estágio posterior deve ser a desocupação, o livre circular em um espaço não mais tomado pelo dominador, nem pelo dominado.

Uma ocupação que se perpetua, corre o risco de se tornar objeto de outra ocupação. A desocupação que se perpetua, tende a se tornar objeto do esquecimento e da ignorância.

Continua. 

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