quinta-feira, 28 de maio de 2015

Depressão e medicalização da vida

Porque o corpo humano não tem a resistência perfeita.

Se bate de leve, dói

Bate de com força, mata


[Avião aeroporto, Karina Buhr]



Em entrevista concedida em 2010 à Univesp TV, a historiadora e psicanalista francesa Elisabeth Roudinesco critica a forma como as neurociências atualmente ajudam a desenvolver uma ideologia segundo a qual o ser humano é reduzível ao seu funcionamento cerebral. Essa concepção redutora do homem o restringe à soma de seus neurônios, diz ela. “As neurociências não têm uma concepção filosófica do homem”, observa Roudinesco. Embora esse campo da ciência possibilite avanços na compreensão e no tratamento de certas doenças psíquicas e neurais, como a doença de Alzheimer e a esquizofrenia, tais progressos também criam condições para a expansão de uma cultura da medicalização da vida. Neste traço da contemporaneidade, valoriza-se a intervenção farmacológica, de respostas quase imediatas, e coloca-se em segundo plano a complexidade do psiquismo e das relações humanas - as ciências do ser, como diz Roudinesco. “Tendemos a negligenciar as ciências ditas humanas: a antropologia, a sociologia, a psicanálise, a história. Vivemos num mundo dominado pela ciência e temos a impressão de que o que não é ciência, ou seja, as ciências humanas, não serve para nada”, diz. A psique (o psiquismo), ou tudo aquilo que não é a materialidade do cérebro, escapa das ciências da natureza. Essa situação, numa cultura da medicalização, contribui para que males contemporâneos, como a depressão, sejam frequentemente empacotados pelo invólucro da medicina tradicional, representada pela psiquiatria. A psicanálise, assim como a arte, a filosofia e outros campos das chamadas humanidades, portanto, tornam-se artigos de decoração diante de diagnósticos duros gerados por médicos, laboratórios e empresas farmacêuticas.

Em O tempo e o cão (Boitempo Editorial, 2009), a psicanalista Maria Rita Kehl fala da “privatização da melancolia” e do aumento das depressões nos últimos anos. Segundo a autora, da década de 1990 em diante, o diagnóstico psiquiátrico das depressões, que a psicanálise vem tentando recuperar para o seu campo de investigação, tomou o lugar que havia sido ocupado pela melancolia até as primeiras décadas do século XIX. A partir dessa observação, Kehl define depressão como o nome contemporâneo para os sofrimentos decorrentes da perda do lugar dos sujeitos junto à versão imaginária do Outro. E explica: “o sofrimento decorrente de tais perdas de lugar, no âmbito da vida pública (ou, pelo menos, coletiva), atinge todas as certezas imaginárias que sustentam o sentimento de ser”. Assim, constatado o aumento da incidência de “distúrbios depressivos”, nas últimas três décadas do século XX, Kehl sugere que se indague o que as depressões têm a dizer sobre nós, “como sintomas das formas contemporâneas do mal-estar”. Em 2013, a quinta edição do Diagnostic and statistical manual of mental disorders (DSM-IV), um manual estatístico e diagnóstico das doenças mentais feito pela Associação Americana de Psiquiatria (APA, na sigla em inglês), caracteriza a depressão como uma profunda tristeza e baixa autoestima, que pode ser desencadeada por estresse - decorrente, por exemplo, de jornadas extensas de trabalho, problemas financeiros, frustrações, luto - e também por causas biológicas.

No site da APA, por exemplo, é possível baixar um formulário para avaliar o nível de depressão das pessoas. O paciente deve marcar em uma escala que vai de 1 (“nunca”) a 5 (“sempre”) se nos últimos 7 dias sentiu-se muito triste, desesperançoso, sem valor, entre outros “sintomas”. De acordo com a associação, essas medidas de avaliação foram desenvolvidas para serem administradas na primeira consulta, como forma de monitorar o tratamento. “Elas devem ser usadas como ferramentas potencialmente úteis para melhorar a tomada de decisões clínicas e não como única base para fechar um diagnóstico”, diz o documento. Apesar dessa advertência, críticos tem acusado o DSM de ampliar enormemente o número de transtorno patológicos, transformando o que antes não era doença em caso médico. Em sua quarta edição, lançada em 1994, o manual já apontava, por exemplo, um crescimento praticamente epidêmico dos diagnósticos de depressão em países industrializados. Maria Rita Kehl cita um artigo de Chris Martinez, publicado em 2007 no jornal Valor Econômico, no qual o autor informa que, na época, 3% da população dos Estados Unidos (19 milhões de pessoas, das quais 2 milhões eram crianças) sofriam de depressão crônica. Já no Brasil, aproximadamente 17 milhões de pessoas haviam sido diagnosticadas como depressivas nos primeiros anos do século XXI. Esse crescimento contínuo da depressão (isto é, dos diagnósticos de depressão) caminha conjuntamente com o aumento do espaço que os antidepressivos tem ocupado na sociedade. “O mercado de antidepressivos vem crescendo no país a uma taxa de cerca de 22% ao ano, o que representa uma movimentação anual de 320 milhões de dólares”, ressalta Kehl. Certamente, se os números forem atualizados para os dias de hoje, observaremos uma continuidade dessa escalada.

Assiste-se, portanto, a uma patologização generalizada da vida subjetiva, como afirma Kehl. Esse movimento resulta em um cenário cada vez mais depressivo, em que sujeitos se tornam apenas pacientes, e suas tristezas e angústias, vírus que devem ser rapidamente aniquilados, combatidos - independentemente se as causas psíquicas da depressão são analisadas, elaboradas e compreendidas pelo próprio sujeito, ainda que ele apresente predisposição bioquímica ou genética para desenvolver a doença. A ampliação do alcance da indústria farmacêutica não só influi no aumento dos diagnósticos de depressão, como também - e principalmente - difunde uma versão medicalizavel de qualquer forma de inquietação, tristeza, oscilação de ânimo ou inadaptação aos padrões de comportamento que caracterizam a vida costumeiramente representada em comerciais de margarina na televisão. Passa-se por cima, assim, da existência das manifestações do próprio inconsciente.

Em 2014, um dos pesquisadores responsáveis anos pelos manuais DSM, durante muitos, lançou um livro no qual faz uma autocrítica. Em Saving Normal, Allen Frances, professor emérito da Universidade Duke, Estados Unidos, conta como foram os anos em que dirigiu a publicação do manual e reconhece equívocos. Em entrevista ao jornal El País, Frances disse que a equipe que produziu o DSM IV, de 1994, não soube antecipar o poder dos laboratórios farmacêuticos de fazer médicos, pais e pacientes acreditarem que o transtorno psiquiátrico é algo muito comum e de fácil solução. “O resultado foi uma inflação diagnóstica que causa muito dano, especialmente na psiquiatria infantil. Agora, a ampliação de síndromes e patologias no DSM V vai transformar a atual inflação diagnóstica em hiperinflação”, alertou Frances. Na entrevista, ele conta, com certa ironia, como o manual pode ser banalizado, por pacientes e médicos, e gerar falsos diagnósticos: “Há seis anos, encontrei amigos e colegas que tinham participado da última revisão [do manual] e os vi tão entusiasmados que não pude senão recorrer à ironia: vocês ampliaram tanto a lista de patologias, eu disse a eles, que eu mesmo me reconheço em muitos desses transtornos. Com frequência me esqueço das coisas, de modo que certamente tenho uma demência em estágio preliminar; de vez em quando como muito, então provavelmente tenho a síndrome do comedor compulsivo; e, como quando minha mulher morreu a tristeza durou mais de uma semana e ainda me dói, devo ter caído em uma depressão. É absurdo. Criamos um sistema de diagnóstico que transforma problemas cotidianos e normais da vida em transtornos mentais”.


O espaço da depressão na psicanálise de Melanie Klein

Conforme explica Roudinesco na entrevista concedida à Univesp TV, a psicanálise estuda de forma interpretativa o funcionamento do comportamento psíquico. Nesse processo, são levadas em consideração questões como “por que ficamos tristes?”, “por que ficamos mal?”, “por que desejamos a morte, nossa ou do outro?”, “como o inconsciente se estrutura?”. Tais indagações não interessam diretamente as chamadas ciências duras, como química, biologia, matemática. Na verdade, não compete mesmo a elas oferecer respostas a esse tipo de questionamento, embora algumas dessas áreas eventualmente utilizem seu quadro teórico para aventar possíveis respostas. Por exemplo, um estudo da Universidade de Warwick, na Inglaterra, publicado em 2014, no qual os pesquisadores afirmam que não apenas fatores econômicos e sociais, mas também genéticos, podem explicar o fato dos dinamarqueses terem sido considerados o povo mais feliz do mundo, de acordo com o Relatório Global da Felicidade. No trabalho, os autores compararam a carga genética da população de 131 países com seu índice de felicidade e concluíram que, quanto mais próximo o DNA de um povo está dos dinamarqueses, maiores as chances de ele ser feliz. Apesar do avanço de abordagens científicas desse tipo, várias questões referentes ao âmago da depressão permanecem intocáveis. Segundo Roudinesco, cabe às ciências interpretativas, entre elas a psicanálise, percorrer o psiquismo em busca de respostas.

Na psicanálise, uma das abordagens mais relevantes para a compreensão da depressão foi desenvolvida pela austríaca Melanie Klein (1882-1960), que teve seu primeiro contato com a psicanálise como forma de tratar sua própria depressão. Ao longo de sua obra, Klein sustenta a tese de que a posição depressiva é estruturante, ou seja, forma a constituição do eu. No livro Folha Explica - Melanie Klein (Publifolha, 2008), os psicanalistas Luís Claudio Figueiredo e Elisa Maria de Ulhôa Cintra contam que após a morte acidental de um filho, na década de 1930, Klein dá início a seus trabalhos dedicados à compreensão dos estados depressivos e maníacos. Em 1935, publica "Uma Contribuição para a Psicogênese dos Estados Maníaco-Depressivos", que marca a entrada da perda e da melancolia no campo de sua teorização. Em outro texto, publicado em O livro de Ouro da Psicanálise (Ediouro, 2007), Elisa Maria de Ulhôa Cintra explica que, para Klein, as angústias depressivas são denominadas “angústias de perda”. Assim como os conceitos de defesa e de relação de objeto, a perda é outra constante na interpretação kleiniana. Essa angústia estaria relacionada a uma ansiedade arcaica, difícil de suportar quando o indivíduo se culpa pelas ausências, danificações ou morte dos objetos perdidos. “O fato de a outra pessoa poder desaparecer, poder deixar de estar interessada e solícita, e, em última análise, poder morrer, todas essas possibilidades insuportáveis são a fonte da ansiedade depressiva”, diz Cintra.

A elaboração da perda está no luto, que para Klein significa realizar o trabalho de elaboração simbólica da perda. Trata-se, basicamente, da capacidade do sujeito de processar (ou digerir) o excesso de afetos ligados à perda, entrando nos processos temporais e humanizando-se. Cintra exemplifica isso com um hipotético caso de uma criança que perde o pai. A partir desse acontecimento, ela sente a culpa e o penar, combinados à raiva, impotência e ao sentimento de humilhação e desamparo - todos difíceis de serem digeridos. “O ferimento da perda precisa ser curado, a ferida precisa ser ‘pensada”, afirma Cintra. É interessante notar como a ideia de cura é tratada nesse contexto da psicanálise kleiniana, em oposição à cura médica fundada na administração farmacológica. Segundo explica Cintra, “a dor se modifica quando a pessoa ferida começa a ser escutada com atenção e pode relatar a repercussão dos fatos em seu psiquismo e desenvolver uma interlocução que permite mudar algo na compreensão dos acontecimentos”. Essa mudança de percepção da própria dor pode levar o sujeito a um insight, isto é, uma nova visão a respeito dos fatos. Enquanto a abordagem medicamentosa propõe a cura biológica, invisível e silenciosa, o trabalho de elaboração da dor, proposto por Klein, funda-se na reflexão sobre a própria dor, uma visão externa que o sujeito tem de si mesmo. E a dor pensada torna possível a emergência de um espaço de criação, indispensável para reparar estragos, sejam eles reais, sejam eles imaginários. “Toda a análise kleiniana caminha no rumo de ampliar a capacidade do indivíduo reparar criativamente e agradecer. Ou seja, reparação e gratidão são, ao fim e ao cabo, os grandes curadores das doenças da alma”, observa Cintra.

Na crítica da medicalização da vida, é significativa a contribuição de Melanie Klein. Isso porque sua proposta de criação a partir da dor depende exatamente de um posicionamento ativo do sujeito em relação ao sofrimento - algo que não pode ser obtido quando o paciente é anestesiado da dor por meio de remédios. Artificialmente (ou temporariamente) blindado do sofrimento, pela ação de compostos químicos, o sujeito permanece afastado da própria possibilidade de elaboração de seus problemas no plano psíquico. “A possibilidade de ser ativo, de transformar a dor em algo interessante, faz perder o medo de ser passivo; abre a possibilidade de sentir com mais vivacidade e nitidez, e de se entregar a essa experiência nova - a de ser uma espécie de caixa de ressonância sensível para que a própria vida psíquica possa emergir em todas as suas tonalidades”, escreve Cintra. Nesse processo, portanto, a dor deve ser acolhida, pensada, vivida e, depois, atravessada - não negligenciada, aniquilada de maneira imediata e asséptica, desviada e transformada em algo sem cor. Por isso que podemos entender que o desejo de fugir da dor, em momentos de desespero, é algo normal e esperado. No entanto, alimentar essa fuga, essa ansiedade, pode levar à consolidação da depressão, uma vez que o luto não é respeitado enquanto processo básico da formação do eu.

Para Klein, a “posição depressiva” é uma condição mental definida como central no desenvolvimento das crianças, normalmente experimentada nos primeiros meses de vida. Essa condição central é a realização de sentimentos de ódio e fantasias sobre o objeto amado, centrado na figura protóptica da mãe. O bebê, ao ir ganhando maturidade física e emocional, começa a integrar suas percepções fragmentadas de seus pais e passa a ter um senso mais integrado de seu eu. Ao reunir sentimentos conflituosos de amor e ódio, percebendo que a pessoa amada e a pessoa odiada são a mesma pessoa (a mãe, por exemplo), leva o bebê ao sentido mais angustiado de culpa e, com um tempo, a um desejo de reparar isso. Esse sentimento é repetidamente revisitado e refinado durante a primeira infância e, de forma intermitente, ao longo da vida. Como medicar tal sentimento, que não pode ser reduzido a uma simples patologia (evidentemente, falando aqui de quadros neuróticos e não de psicóticos ou borderlines)? A cura possivelmente está na própria dor. Como afirma Cintra, em relação à Klein, “com a angústia, atingimos o solo mais básico do funcionamento psíquico, tocamos naquilo que é mais visceral, mais íntimo, mais profundamente determinante de toda a organização psíquica”. Na visão de Melanie Klein, esse é o fio condutor da escuta analítica, aquilo que conduz à estrutura do psiquismo. Ao escutar-se e intervir no registro da ansiedade, o sujeito é capaz de atingir as forças que geram o sofrimento e produzem a neurose, como a depressão, tendo em mãos não pílulas ou receitas, mas toda a vastidão de seu inconsciente. Um caminho árduo que lento, que nem todos estão dispostos, ou são incentivados, a percorrer em tempos de medicalização da vida.

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