terça-feira, 8 de setembro de 2015

Série: Jornalistas e blogueiros - Ísis Nóbile

O segundo post da série de entrevistas com jornalistas de ciência que também são autores de blogs é com Ísis Nóbile Diniz. Jornalista da ONG Iniciativa Verde, Ísis é autora do blog Xis-Xis, hospedado no ScienceBlogs Brasil.  

Crédito: Acervo Pessoal / Facebook
Blog do Bruno de Pierro - Como se deu sua aproximação com a ciência e com os blogs?
Ísis Nóbile - Sempre gostei de ciência, e não vejo a ciência separada do meio ambiente. Eu gosto de ver o meio ambiente com um olhar científico. Eu resolvi criar o blog por gosto. Na escola, a gente sabe que o ensino da ciência é muito defasado. Eu creio que não se ensinam os conceitos científicos básicos, a metodologia. Você até aprende metodologia, mas não faz associação. Eu notei que as pessoas tinham interesse quando eu contava sobre algo que eu tinha lido, só que elas não liam. Quando eu comecei a escrever o blog muita gente veio me falar “Ah, agora eu estou entendendo!”. Mas eu achava curioso porque às vezes amigos meus, amigos que eram veterinários, inclusive, diziam ter vergonha de comentar porque não entendiam.

Em que ano você começou o blog?
Acho que foi em abril de 2008. Naquela época não existiam muitos blogs de ciência. Muitos eram escritos por homens, uns tiravam sarro de ciência, o que é legal também. Esses pegavam mais coisas engraçadinhas, faziam umas sátiras. Outros escreviam de tal maneira que quem é leigo não chegava nesses blogs. Eu resolvi começar a escrever porque sempre fui apaixonada por ciência, desde pequena. Tanto é que quando eu fui fazer faculdade eu fiquei com dúvida, mas acabei optando pelo jornalismo porque eu queria falar de muitas coisas. Eu queria estudar muitas coisas. Meu pai é pesquisador científico. Vários tios meus são. Eu cresci em museu. Sempre tive uma afinidade e uma facilidade também.

Na época em que você criou blog também existia a intenção de produzir um conteúdo que você não via na cobertura tradicional de ciência?
Exatamente. Havia as revistas Super Interessante, Galileu, por exemplo. Elas faziam um pouco isso. Mas eram revistas. E os temas geralmente eram os mesmos. Hoje em dia essas revistas estão um pouco mais abrangentes, mas naquela época alguns assuntos não eram tratados dentro de ciência. Era uma lacuna. E tudo foi caminhando para isso. Na época eu estava saindo de uma editora, onde eu trabalhava numa revista de decoração, que eu até ajudei a criar, e eu tinha uma coluna que falava da parte ambiental. E fui me identificando cada vez mais. Fui vendo que o que era “ecochato”, “ecobobagem” não se aplicava, e fui entrevistando pessoas que eram referência na área. Foi automático, bem natural.

Falando ainda sobre o início do blog, você consegue identificar o que você sentia falta na cobertura de ciência? Isso especificamente no Brasil.
O que eu mais sentia falta tinha relação com a linguagem – a linguagem ser fiel ao tema. Eu lia vários sites lá de fora, via artigos interessantes, e eles traduziam a linguagem de uma maneira bem simples, só que sem perder a essência, sem ficar sensacionalista. A questão do tema também. No Brasil, se a gente escreve sobre paleontologia, astronomia e alguns outros temas as pessoas adoram. Essas pessoas clicam mais, lêem mais esses assuntos. Quando eu trabalhava no Yahoo! isso ficava bem claro. Eu tinha a liberdade de escrever sobre o que eu queria, mas também existia uma cobrança por cliques. A gente mesmo se cobra, né? Eu quero que minha matéria seja lida. Se você fala um pouco de comportamento, alguma coisa de psicologia, tudo isso vai chamando a atenção. Mas geologia, por exemplo, é um assunto que muita gente acha chato. Mas é super interessante. Então, de repente, a maneira como ele é colocado torna a leitura agradável. Então tinha muito a ver com a linguagem. Eu queria fazer essa tradução.

Além da preocupação com a linguagem, você buscava também trazer um pouco da crítica da ciência – mostrar que a ciência é um processo que às vezes esbarra em dúvidas, problemas não resolvidos? Ou sua preocupação maior é mesmo passar a ciência de uma forma mais simples?
Isso também é importante, só que eu buscava atingir o público em geral. As pessoas já vêem a ciência como uma religião: falou, tá falado. Eu sempre tocava nessa questão de uma maneira muito delicada ou às vezes até provocativa. Teve um post que foi super criticado. Não me lembro dele por inteiro, mas lembro que falava que masturbação causava câncer de próstata. Escrevi de propósito. E até hoje eu recebo e-mail por causa disso. E fiz pra mostrar justamente isso: ao invés de mostrar esse processo de construção da ciência, coloquei como algo exato. Nas entrelinhas eu sempre tentei mostrar isso. Mas poucas vezes fui mais direta. O papel do jornalista não é necessariamente educar, mas sei que o divulgador de ciência na internet deve educar. Tem que começar do começo. Tem que atrair a pessoa e aí mostrar a problemática da questão toda. Eu não me lembro de já ter aberto alguma questão, mas nos próprios comentários isso acontecia. Uma vez fiz uma pesquisa para ver quem era meu público, que lia os posts, e eu descobri que eram mais professores. Isso anos atrás, acho quem em 2010. E não era esse o público que eu queria atingir. Aí eu refleti muito sobre isso.

A área ambiental é povoada de conflitos, envolvendo política, movimentos sociais, ambientalistas. É um campo bem tenso. Como você trata essa tensão no blog?
Eu já até discuti com outros blogueiros que falam de meio ambiente, inclusive pessoalmente. Mas foram discussões saudáveis, não brigas. Eles colocavam como certos alguns conceitos, que são bonitos, mas que, na realidade, são questionáveis cientificamente. Eu falava que se o objetivo era proteger a biodiversidade aquela não era a maneira correta. Essas discussões eu sempre tento colocar e sempre causam muito stress. Por exemplo, a monocultura. A gente sabe que o plantio de árvores acaba absorvendo gás carbônico, então você acaba evitando o aquecimento global. É uma maneira porca, mas é uma maneira de se evitar um problema. Mas aí tem gente que critica. Mas é um dado; eu não estou falando que temos que fazer isso. Outra sobre aquecimento global – aquecimento global sempre rende discussão. Um aluno comentou lá que tirou 3 na prova. Eu fiquei com dó. Eu tinha colocado lá que um cientista mexicano falou que o aquecimento global não existia. Escrevi para causar mesmo. Mas era a opinião do pesquisador. Eu não me aprofundei no assunto. Foi aí que eu percebi que as pessoas acreditam piamente no que está ali. Não que você fale mentira, mas eles não fazem contextualização. Teve também a do último relatório do IPCC, que fala que algumas coisas que estão acontecendo já podem ser por causa do aquecimento global. Quando eu posto essas coisas eu sempre coloco esse “pode ser”. Aí já vem gente contestar porque não é certeza e aparecem aquelas teorias da conspiração, que dizem que isso está sendo usado pelos governos. Muita gente também me critica por e-mail ou fala pessoalmente. Eu vejo que a ciência tem esse problema de um modo geral. Mas mesmo eu, que gosto do assunto, tenho dificuldade em alguns temas, honestamente. Pouca gente vai falar isso. Eu estou sendo honesta. Dependendo do tema, eu terei dificuldade em questionar. Pode ser difícil avaliar se o método que o pesquisador usou em seu artigo foi interessante, se foi bem aplicado. Em outros tenho mais propriedade, mais estudo, como na questão ambiental. Mas sempre sou criticada. As pessoas têm dificuldade de entender esse “pode”. A partir do momento em que você coloca que aquilo não é exato, as pessoas diminuem o problema. No caso do aquecimento global, você coloca ali que as evidências mostram que ele é fruto da ação humana. Mas ainda são “evidências”. Essas palavras são usadas para diminuir aquilo e fazer diminuir a importância. Sinto isso em todas as áreas da ciência. As pessoas não gostam do “pode”; elas querem seguir uma liderança.

Em questões que envolvem o ambientalismo, como esse caso recente envolvendo o eucalipto transgênico e o MST, você acha importante, tendo um blog de ciência, ficar do lado da ciência?
Antes de trabalhar em uma ONG, eu falaria que ficaria sempre do lado da ciência e pronto. Hoje, trabalhando em ONG, eu não acho que a gente deva atropelá-la, mas acho que temos que usar essa ferramenta para a nossa qualidade de vida. Eu abriria para a discussão. Eu sempre vou pender para a ciência porque eu não gosto do imediatismo. A gente tem que pensar a longo prazo e isso também é algo que costumo colocar. Nada acontece do dia para a noite, principalmente na ciência. Eu penderia para o lado da ciência, mas tentaria equilibrar para não prejudicar o lado das pessoas. Hoje o Código Florestal permite o plantio de pomar junto com árvores nativas nas áreas de preservação permanente (as APP). Eu sou completamente contra. Mas indo a campo e vendo a situação dos agricultores, eu questiono. Eu peso em quanto aquilo vai interferir no desenvolvimento da Mata Atlântica e quanto aquilo vai ajudar a vida dessas pessoas. Já não tenho mais um pensamento tão crítico assim. Eu mudei um pouco. A gente se sensibiliza.

Nesse seu processo de mudança, você acha que passou a valorizar mais a construção do conhecimento, como, por exemplo, o processo de uma pesquisa? Você passou a apreciar não mais tanto o resultado, a palavra final da ciência, mas também o processo?
Em alguns casos sim. Nem todos. Algo que eu questionava e até hoje questiono é: a pesquisa é para quem? É do interesse de quem? Eu ainda acho que o interesse tem que ser o mais abrangente possível. Tem que beneficiar muitas pessoas – é uma obrigação do pesquisador, ainda mais se o dinheiro é público. A teoria é importante e não acho que tenha que ser tudo para ontem. Acho que, de modo geral, grande porcentagem da pesquisa, como o método e tal, tem que ser pensada no coletivo.

Qual a matéria-prima dos posts do seu blog?
Embora seja um blog de ciência, por incrível que pareça, eu quis fazer relacionado ao meu cotidiano. Às vezes é alguma coisa que eu li, às vezes é algo que não coube numa matéria, aí eu peço licença para os editores para postar. São sempre coisas assim. Ele ficou um pouco parado por conta da gravidez e agora que a nenê nasceu. Mas o que eu tenho feito recentemente é falar um pouco sobre a questão da maternidade. E olha, estou para ver algo que seja mais discutido do que comportamento infantil. Existem vários autores e cada um segue uma linha. É incrível.

Você está documentando as suas descobertas também.
Exatamente. E também tem o lado do meu trabalho, que é com meio ambiente. Eu estou lendo muito artigo científico porque a gente tenta fazer nosso trabalho em cima de pesquisa. A gente vai muito a reuniões e discussões públicas. São vários pesquisadores, e precisamos ter um embasamento científico para tentar convencer o governo. É isso o que ambientalista faz. Ultimamente tem sido mais por esse caminho: menos coisas que eu leio de forma aleatória, como paleontologia, e mais do meu dia a dia mesmo. Na gravidez eu li muita coisa, muito texto em inglês, muito artigo científico sobre gravidez. Eu podia fazer uma tese. Eu sou muito curiosa e queria passar isso porque eu vejo que tem muita bobagem, muita coisa escrita no “achismo”. Mas também sempre foi da minha vivência. É que nem sempre eu deixo claro o porquê aquilo está lá. A história das secas a gente tem estudado muito. Lá na ONG a gente planta árvore nativa.

Conte mais sobre o trabalho da ONG.
Resumindo, a Iniciativa Verde faz a reposição de florestas nativas com dinheiro público e privado, por meio de editais ou parceria com empresas. A gente tem um edital da Petrobras, que a gente faz saneamento básico com tecnologia desenvolvida pela Embrapa, uma tecnologia financeiramente viável, barata. Custa dois mil reais um tratamento de esgoto e usa as bactérias das fezes dos ruminantes, como vacas, pra decompor, e ainda sai fertilizante. É bem interessante. Tem também outro projeto do BNDES. Ele destina um dinheiro só pra replantar florestas nativas. A gente vai replantar 425 hectares. As empresas podem doar árvores ou a gente faz inventário de carbono e compensa plantando árvore. Basicamente, é isso: plantio de árvore nativa em regiões de mata auxiliar. A gente usa alguns estudos já feitos no Brasil para saber que tipo de árvore temos que plantar etc. Eu lido muito com agricultor porque a gente viaja pra conversar com os agricultores e convencê-los a ceder o terreno porque, a partir do momento que você planta Mata Atlântica, você não pode derrubar. É legal que a gente vê no campo que eles têm percebido que o plantio e a recuperação da mata revertem em benefício para eles – tem mais água o ano inteiro, o solo melhora para o cultivo.

Vocês lidam muito com o pequeno agricultor?
A maioria. Geralmente, até por meio de associações porque são vários. A gente lida com o pequeno agricultor, com assentamentos, com comunidade quilombola. Isso é sensacional.

Você lida, ao mesmo tempo, com o conhecimento científico e com esse conhecimento tradicional, portanto.
É super difícil porque eu desenvolvo material para todos. Eu desenvolvo material para técnicos e para agricultores. Eu estou aprendendo a falar com eles. É outra linguagem. Eles não são ignorantes, de jeito nenhum. Não é isso. Mas a motivação deles é outra. Eles estão vendo o impacto diretamente. A gente está aqui na cidade, a gente abre a torneira e a água está com o gosto estranho. Eles estão vendo isso lá. Tem pessoas que viajam com a gente e vão a campo achando que são pessoas ignorantes. Não, não são. Alguns podem não ter estudo formal, mas sabem muito mais que muita gente. E de tudo. Porque essas pessoas estão vivendo aquilo.

Lidando com essas pessoas, que têm esse conhecimento empírico, e tendo experiência em revista de ciência, como a Pesquisa FAPESP, e cientistas na família, você acredita que existe uma lacuna muito grande entre esses dois mundos e talvez eles devam conversar mais? Ou você acredita que isso não é possível?
É super possível, é enriquecedor.

Mas isso acontece na prática? Ou existe essa barreira?
Tem um pouco, depende. Depende da região, depende das pessoas. Recentemente a gente fez um documentário, que até coloquei no blog. Tinha um técnico dando uma entrevista e uma pessoa da equipe de produção que estava lá com a gente comentou que, do jeito que ele estava falando, ela achava que os agricultores não estavam entendendo. A pessoa achou que ele estava sendo um pouco arrogante. O campo está mudando muito, muitos agricultores estão cursando faculdade. Mas quando o técnico, que estudou, que freqüentou a academia, consegue conversar, enriquece muito mais. Tenho notado que as pessoas que estudam várias áreas no campo, seja solo, florestas ou animais, e pegam aquele conhecimento local, o estudo é outro. Se o cara é da região, se o pai era dali, a fazenda já vem vindo de anos, ele sabe muito. Ele tem muito conhecimento, só não tem aquele estudo formal. Juntando os dois dá para conversar e eu acho que isso é muito importante. É possível, mas requer uma adequação e aceitação, dos dois lados, sem um ter preconceito com o outro. O cara que é de assentamento, que já ouviu muita promessa, ou o agricultor que já sofreu muito, eles custam um pouco a acreditar. Mas tem de tudo. Tem agricultor estudado formalmente e tem os mais simples.

Na sua opinião, o jornalismo de ciência, pode ser um agente para promover essa interação?
Acho que pode. Quando eu vou para o campo entrevistá-los para fazer os materiais ou simplesmente acompanhar os pesquisadores, eu nem acho que a gente está indo com informação. Eu acho que é uma troca mesmo. Eles trazem coisas e a gente leva coisas. A gente leva o que a gente estudou sentado na escola e eles trazem o conhecimento diário. Tem lugar que se você quiser plantar certo número de árvores o pesquisador sabe que aquela não é uma área boa, que é muito insumo para plantar tal tipo de árvore ali. Aí você explica para eles. Sempre há uma troca e acho que o jornalismo poderia fazer isso, sim

Mas você acha que ele faz? Tanto os blogs como os meios mais tradicionais?
Não. Muito pouco. Acho que mais as mídias alternativas mesmo, como revista institucional de ONGs. Eu acho que o jornalismo de ciência no Brasil deu uma caída. O interesse tem sido maior, da mídia tradicional. As pessoas têm mais interesse pela falta de dinheiro. As matérias, generalizando, não necessariamente estão tão ricas quanto eram na questão investigativa. O blog também vem para isso. Os blogs e as colunas. Porque aí o cara tem um pouco mais de abertura para pôr a opinião dele. Eu não acredito que não tenha a opinião da pessoa que está escrevendo. Claro que tem. A opinião dela já começa na escolha do tema, na pauta. Eu acho que as pessoas têm procurado mais isso: a opinião das pessoas.

Todo jornalismo deve ser informativo, mas estão procurando um jornalismo mais explicativo.
É, explicativo. A notícia, em si, está virando commodity. É notícia, jogada ali. Quando eu trabalhava em portal. As grandes descobertas são sempre cobertas pelas agências internacionais. É interessante, são assuntos relevantes. Daí eu recebo a cobertura deles. É meio commodity. Eu escrevo o artigo e coloco ali. Claro, cabe à gente contextualizar, explicar. Se você fizer isso de maneira clara e colocar sua opinião, o que o blog e a coluna permitem, eu acho válido. Aliás, qualquer meio permite que você exponha sua opinião, desde que isso fique claro no editorial.

Em 2013 ocorreu um debate na internet sobre os blogs de ciência no Brasil. Você chegou a participar, né?
Sim, eu discuti.

Qual o seu balanço daquilo? Você acha que os blogs de ciência estão, de fato, numa crise?
Acho que são muitas coisas. Teve gente que chegou a falar que as pesquisas, em si, caíram. Já ouvi que se estava pesquisando menos, não sei se isso é verdade. Não tenho dados para dizer isso. Algumas redes sociais, como Facebook e YouTube (que eu nem considero muito como rede social), acabaram se colocando como meios de comunicação mesmo. As pessoas entram lá, colocam sua opinião, sua notícia, sua foto. Todo mundo virou um pouco jornalista. O Facebook e o YouTube começaram a captar muito dinheiro, seja com anúncios grandes, de empresas grandes, ou de promoção de páginas. E isso é uma lógica do jornalismo, da publicidade ali. Desde o Twitter, em 2007, começou essa discussão. Falavam que o Twitter ia tomar o lugar dos blogs porque as pessoas têm muita pressa e aquilo era um micro blog. No fim, o Twitter acabou achando o lugar dele, que é mais de divulgação. Não dá pra você contextualizar e se aprofundar muito num assunto no Twitter. Eu não sei se diminuiu porque, do outro lado, a gente vê uma nova leva de pessoas, escrevendo de maneira diferente. Eu tive meu primeiro computador com 11 anos. Hoje tenho 33. Sou da geração das pessoas que tiveram seu primeiro computador na adolescência. Esse pessoal novo que está escrevendo nasceu com um computador, então a visão deles também já é diferente. Na época eu lembro que critiquei um pouco, mas acho que esse pessoal mais velho da divulgação científica, muitos pesquisadores que tinham seus blogs, se desanimaram. Teve aquele boom também, que muita gente foi viver de blog. Eu tive a oportunidade, mas fiquei com receio. Não quis abandonar tudo. Teve gente que se encontrou na divulgação científica, mas, por não conseguir se manter financeiramente, acabou indo para outros lados. O próprio blog levou para outras coisas, pra dar aula, dar palestra. Eu saí da mídia tradicional para me tornar uma gestora de comunicação. Eu desenvolvo produtos de comunicação: vídeos, revistas.

E você acha que o blog foi um fato determinante nessa sua mudança?
Foi, com certeza. Para tudo. Acho que está vindo uma leva nova, mas houve realmente uma pulverização porque o Facebook virou um canal, o YouTube virou um canal. O Iberê Thenório, por exemplo, tem lá o Manual do Mundo. Eu trabalhei com ele no G1. Eles também foram crescendo. Acho que hoje está até mais rico. Por outro lado, eu acho que as redes sociais acabam espalhando conteúdo que não se sabe a autoria e que é feito sem embasamento nenhum, sem fundamento. Isso é meio arriscado, mas acho que também é algo que as pessoas já estão começando a perceber e já estão procurando conteúdos mais fiéis, mais seguros. Uma amiga minha está grávida e digitou um negócio lá no Google, daí eu já falei para ela quais eram os sites confiáveis. Você vai naquilo que te traz segurança, que te traz um pouco de embasamento, aí você acaba recorrendo aos grandes veículos, àqueles blogs que você já conhecia. Na época eu critiquei um pouco, mas hoje em dia eu não acho ruim o Facebook se colocar assim ou o Google. É uma maneira de mexer com a mídia. A gente está vivendo um novo momento. Eu não acho que o jornalismo vá acabar, mas ele vai mudar, está mudando.

A percepção da comunicação, a necessidade de se colocar pontos de vista contraditórios. Você acha que o cientista que está escrevendo consegue desenvolver isso? Gostaria da sua opinião como leitora de blogs. Acho que eles conseguem, mas dentro do tema que eles têm mais familiaridade. É mais fácil. Mesmo porque se o cara for biólogo vai ser difícil ele escrever sobre matemática.

Mas dentro da área dele, você acha que ele consegue trazer essa preocupação de mostrar, por exemplo, tensões políticas dentro da área, como no seu caso, que é ambiental? Ou ele acaba vindo com o discurso muito técnico?
Depende do blog. Alguns conseguem, outros não. Outros eu acho que tentam e não conseguem, e acabam falando para o próprio público. Porque é difícil mesmo. Agora se o cara é acadêmico, por mais que ele saiba o outro lado, dependendo do tipo de pesquisa que ele faz, a gente sabe que tem muita picuinha nessa área. Acho que eles até têm vontade, mas não se atrevem para não criar problema. E isso é uma coisa que um jornalista, que não está na área, pode fazer isso sem muito medo. Não sei até que ponto isso atrapalha. Mas acho que consegue, sim. Não é falta de capacidade. Se não conseguir, é falta de interesse. A não ser que a linguagem que ele usa seja mesmo para falar com os pares. E às vezes é esse mesmo o interesse dele. Independente da formação, saber se expressar é uma coisa nata, mas também pode ser desenvolvido. Tem muita gente que não é formada em jornalismo e é melhor que muito jornalista. E tem jornalistas que são excelentes também.

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