sexta-feira, 18 de setembro de 2015

Série: Jornalistas e blogueiros: Salvador Nogueira

O terceiro post da série de entrevistas com jornalistas de ciência que também são autores de blogs é com Salvador Nogueira. Jornalista colaborador de diversas publicações, como o jornal Folha de S.Paulo e revista Pesquisa FAPESP, Salvador é autor do blog Mensageiro Sideral, hospedado no portal da Folha.

Crédito: Arquivo Pessoal / Facebook
Blog do Bruno de Pierro - O seu interesse dentro da ciência é específico: astronomia. Você inclusive já publicou livros sobre o assunto. 
Salvador Nogueira - A astronomia veio em mim muito antes do jornalismo. Eu sempre fui apaixonado, desde moleque, por astronomia, e uma das portas de entrada para o mundo da ciência, para mim foi a própria astronomia. Em 2000 eu tive a chance de participar de um concurso interno da Folha para ir para a editoria de ciência e acabei ficando por lá. Claro, você cobre de tudo, mas sempre tive uma paixão muito maior por astronomia. Conforme você vai ficando mais sênior, você vai podendo escolher mais. E conforme você escolhe mais, você vai para onde gosta. Foi por isso que eu migrei e criei uma identidade muito forte com essa coisa de astronomia. Mas você sabe como é cobertura de ciência: você vai onde estão chamando.

O que te motivou a voltar a produzir conteúdo para um blog? O que você encontra num blog que não encontra na produção de uma reportagem convencional?
O formato de blog é extremamente atraente. E é uma diferença muito marcante. Eu escrevo reportagens para o jornal da Folha e para o blog da Folha, e é um mindset completamente diferente quando você vai abordar um e o outro formato. O blog é muito mais libertador, no sentido de que você não está tão preso às regras de formulação de texto que existem dentro de uma redação quando você está seguindo o padrão de um jornal. É uma experiência de libertação, do ponto de vista formal. Você tem uma gama de recursos que não pode usar na reportagem convencional: a informalidade, a possibilidade de você dialogar com o leitor de uma forma mais aberta e até mais honesta, se colocando como interlocutor e não como uma voz que vem do além. Os jornais são meio que uma voz que vem do além; eles estão te contando a notícia, mas existe uma impessoalidade. Quando você transpõe isso para o blog, você muda completamente essa lógica. Você passa a ser um agente da informação. Você não está tentando transferir a informação de uma forma que o leitor não perceba você, como se você fosse transparente. Muito pelo contrário: você quer chamar para você uma personalidade, um jeito de falar, um jeito de transmitir informação, e isso é muito libertador.

Além da forma, há diferenças de concepção de lidar com a ciência. Concorda?
Sim. No blog, me permito a dar espaço e jogar informações que talvez no jornal impresso, pelas limitações que você tem de espaço e pelos critérios de seleção de material, não desse. Na hora que passou eu escrevi um assunto que é controverso, que é a formação de planetas, de como isso se dá, e mostrando realmente a controvérsia de hipóteses alternativas para explicar a formação do sistema solar e, neste ponto do jogo, nós realmente não sabemos qual delas é melhor. Não tem nenhuma favorita, é uma área nebulosa. Isso é uma coisa que você pode fazer no blog com muito mais facilidade do que no jornal. Porque no impresso você tem que dar a notícia que é a “game changing”, é a descoberta que muda aquilo que a gente pensa. Você não pode parar muito tempo para mostrar a controvérsia ou, como você falou, o ponto de tensão. Não o ponto de ciência e não ciência, como você está abordando, mas ainda assim o ponto de tensão entre diversos grupos de cientistas que trabalham ideias opostas.

Ao mostrar esse lado da ciência, de que ela é um processo, uma construção de teorias que muitas vezes entram em conflito entre si, isso não teria também um significado político, de mostrar que a ciência não está acima de tudo?
Eu não sei se é tanto uma questão de política quanto é uma questão do que o novo meio te proporciona. Uma coisa que é muito diferente no blog em comparação com a produção convencional da mídia é que você tem um feedback instantâneo e você tem um nível de interação com o seu leitor que é muitas vezes maior do que aquele que você tem no jornal. No jornal você pode escrever uma matéria e dali uns dias receber um e-mail ou uma carta – que cada vez menos as pessoas usam, mas ainda usam. E no blog você tem aquele esquema de comentários, que é uma coisa instantânea. Então eu acho que no blog a discussão é muito mais fértil do que uma reportagem “stuck”, que está impressa numa página de jornal, que você não vai mudar, não importa o que o seu comentarista diga. Quando você diz “política”, eu penso em um formato buscado para provocar intencionalmente esse tipo de transformação na apresentação da ciência. E eu acho que não é intencional. Acho que você migra para o blog porque ele é um novo formato, simplesmente. A própria mídia tradicional percebe que todo mundo está lendo blogs, então ela precisa fazer blogs. Não é uma decisão consciente, de que isso vai mudar e que a ciência vai ser mostrada de forma mais realista. Mas o resultado dessa migração acaba produzindo esse efeito. Eu não acho que seja uma coisa tão intencional, mas ela acaba sendo inevitável a partir do momento em que você abre o diálogo, que é uma coisa absolutamente nova na mídia. Isso é que faz a grande diferença.

Você citou um post mais recente agora. Você poderia citar mais uns dois exemplos de posts que talvez não tivessem espaço para serem abordados de forma mais noticiosa no jornal? Algum outro tema controverso?
Tem esse de formação planetária, que é bem recente, que está bem na minha cabeça. Um tema forte no meu blog é a astrobiologia, ou seja, a busca de vida em outros planetas, tentando entender a existência e a prevalência da vida no universo. Isso gera uma série de respostas que são non sequitur, que muitas vezes não têm embasamento na ciência. Isso retrata bem esse seu trabalho de buscar zonas de conflito. Quando você fala de vida não convencional, de vida hipotética, que não seja baseada em carbono e que não use água como solvente, em outros mundos, esse é o tipo de coisa que é tão especulativo que você até consegue emplacar no jornal impresso, mas você já tem um mindset na sua cabeça de pensar que uma coisa tem mais a cara do blog ou mais a cara do jornal. A rigor, quando não existiam blogs, talvez fosse mais fácil emplacar isso no jornal. Mas como existem, e se trata de uma discussão em andamento, polêmica e que depende muito de especulação, ela cabe muito mais no blog, onde você está propondo um diálogo. E é normal: quando você apresenta uma controvérsia, você está convidando ao diálogo. Se você vai apresentar um fato consumado, você não precisa convidar ao diálogo. Toda vez que eu escrevo sobre vida em Encélado ou Europa – que é vida convencional, buscando água e usando compostos orgânicos, como a conhecemos – muitos leitores se perguntam por que existe essa obsessão dos cientistas em procurar vida como nós a conhecemos. Fica muito evidente a necessidade do debate nesse assunto.

Você trabalha de uma forma que, não importa se o assunto é estritamente científico, ele deve ser debatido?
Com certeza. Falando sobre os transgênicos, por exemplo. Se você perguntar a minha opinião, tudo o que foi feito até agora de transgênicos me parece absolutamente seguro, trivial e poderia até ter acontecido naturalmente. Nada de extraordinário. Contudo, a gente tem que levar em conta que os cientistas não trabalham num vácuo. Eles trabalham numa sociedade. Uma sociedade que os sustentam, inclusive. É difícil você encontrar um cientista que não dependa de verbas que vêm do contribuinte. E uma vez que eles são sustentados pelo contribuinte, esse debate é requerimento básico. Há de se convir que a única controvérsia não é de origem científica. Você pode ter outras ordens de controvérsia. Você pode ter uma controvérsia ética. Tudo bem, cientificamente não tem risco nenhum, mas de repente a sociedade decidiu que manipular organismos não é uma boa ideia.

Não é porque a ciência pode fazer algo que ela deve fazer algo.
Exatamente. Eu acho que essa é uma discussão que vai se tornar cada vez mais evidente, cada vez mais importante, à medida que a gente está chegando em tecnologias que podem efetivamente nos ameaçar. Vou te dar um exemplo que é extremo, mas que ajuda a ilustrar isso. LHC. Na época em que foram ligar o LHC, existia uma meia dúzia de pessoas que estavam preocupadas porque existia uma chance não nula de que aquele negócio levasse ao colapso do universo. Aí pediram pra não ligar e foram na justiça, mas acabaram perdendo. É um caso extremo, mas é muito emblemático dos dilemas que nós vamos enfrentar a partir de agora. Nanotecnologia, por exemplo. Em princípio, o fulaninho que está ali trabalhando com nanotecnologia, está lidando com coisas seguras. Mas não é impossível de se imaginar que uma tecnologia dessas saia do controle e comece a se replicar pelo mundo. Outro exemplo que é muito premente é a recriação da varíola em laboratório e também o vírus da gripe espanhola. O argumento é que eles estão sendo recriados para que, antes que eles reapareçam, a gente já tenha instrumentos para desenvolver defesas. E é absolutamente legítimo esse argumento. Mas toda vez que você cria uma coisa assim você tem um risco, que não é zero, desse negócio escapar do laboratório. E aí aquilo que você está tentando evitar pode acontecer. Não quero dizer com isso que a gente deva ter preconceito com a ciência e impedir que ela avance. Mas é fundamental que a sociedade discuta de maneira saudável quais são os riscos e quais são os benefícios. O que não pode é o cientista achar que vai trabalhar num vácuo em que só ele, por motivos técnicos, decide que é seguro. Se o risco é de 0,00000001%, todo mundo concorda que esse risco é muito pequeno. Mas será que todo mundo concorda que esse risco é aceitável? Quem decide o que é aceitável e o que não é? O século XXI vai ser muito interessante.

Recentemente teve a questão dos eucaliptos transgênicos, da ocupação do MST na fábrica da Suzano. Vi muitos comentários de gente dizendo que existe um consenso entre os cientistas de que isso é algo resolvido já e que o grupo de cientistas que não concorda com isso é um grupo ligado a movimentos políticos, contaminado por ideologias.
É claro que estamos falando de discussões que estão em aberto, mas nem por isso se deve anuir ir lá e destruir pesquisa. Existem caminhos para você buscar o diálogo e certamente não é esse. Para citar um outro exemplo radical, outro dia, não lembro nem onde, foram lá libertar animais de pesquisa científica.

No instituto Royal, né?
Exato. A resposta está errada. Você pode ter a demanda. Acho justo. Discutir direitos dos animais? Perfeitamente justo. Acho também que é uma discussão que tende a esquentar, não tem que esfriar. Independente disso, é obvio que a gente nunca vai concordar com ações violentas e intempestivas, tanto de um lado quanto de outro. A gente não pode aceitar nem que os caras invadam e destruam o trabalho e nem que os cientistas digam que a discussão já acabou. A discussão só acaba quando a sociedade decidir que acabou.

Recentemente fui a um evento grande na FAPESP que discutiu modelos de experimentação, como o uso de pele artificial, para evitar o uso de animais. A preocupação crescente dos cientistas é decorrente, pelo menos em parte, da demanda social.
Claro, sem a menor dúvida. Se ninguém pressionasse, para eles estava tudo certo. Você não pode ir para o seu trabalho todo dia achando que você está cometendo um crime. Se um cientista tiver que matar rato todo dia ele vai adquirir uma insensibilidade. Ele não vai poder viver consigo mesmo se não adquirir. Precisa mesmo do chamamento social, de gente que não está matando rato todo dia, pra dizer “Você tem certeza que você precisa matar esse rato?”. Eu participei da produção de um programa que envolvia experimentos com animais. Eu não estava ali, mas a repórter que fez a reportagem contou que o pesquisador estava disposto e estava querendo sacrificar um animal só para poder filmar. Nem era parte do experimento; era para demonstrar a quilo que eles faziam. Na minha modesta opinião, não sei qual a sua, isso é um despropósito imenso. É uma vida que vai ser sacrificada cedo ou tarde? Vai. Mas aí falta um certo respeito àquela vida que você está sacrificando. Não é tão descartável assim. E acho que isso tem a ver com o fato de que o fulano que vai para lá precisa se dessensibilizar. Se ele ficar pensando que hoje matou tantos e amanhã vai ter que matar não sei quantos, a coisa não avança. Ele precisa perder esse apego. Eu não sou o cara que vai dizer que a gente deve interromper a experimentação animal, porque não dá. Mas eu acho que é importante que a sociedade (e isso inclui os cientistas) cultive isso como um mal necessário, e não como uma coisa natural. Você vai fazer porque não tem outro jeito de fazer. E se tem outro jeito de fazer você tem a obrigação ética de procurar esse jeito.

Por que no Brasil o noticiário de ciência acaba se colocando um pouco como porta-voz da ciência? Você concorda com isso?
Concordo. É óbvio que num mundo ideal o jornalista tem a função de ser o crítico muito mais do que ser o porta-voz. Mas a gente vive numa circunstância, e eu acho que no Brasil em especial, em que a ciência ainda precisa muito ser defendida na sociedade. Se você pegar “O Mundo Assobrado pelos Demônios”, do Carl Sagan, você já vai enxergar isso lá. Ainda existe uma cultura da ignorância que se sobrepõe muito à cultura da ciência. Quando a gente está discutindo em alto nível, é natural a gente apresentar as deficiências, as limitações e a interação da ciência com a sociedade. Acho perfeitamente razoável. Mas quando você está lidando com o grande público, você tem que ver que vai lidar com um público em que 95% das pessoas têm uma descrença completa da ciência, que colocam seus conjuntos de valores ancorados numa coisa que é muito mais perigosa. E aí tem 5% de pessoas que poderiam aproveitar aquela crítica que você poderia fazer à ciência.

Então talvez o caminho talvez seja primeiro apresentar o que é a ciência para depois discutir criticamente?
Claro. Isso é fundamental. E se você consegue fazer as duas coisas ao mesmo tempo é maravilhoso. Mas nem sempre é possível, e isso é uma coisa que eu vejo muito na vivência do blog, que é a vivência do diálogo. Quando você coloca uma coisa que está sub judice, que a ciência ainda está debatendo, que existem lados, que existe hipóteses que são contraditórias, que ninguém sabe bem para onde vai, isso é usado como argumento pelos defensores da ignorância, por assim dizer, para dizer que a ciência não descobre nada, que a ciência não sabe de nada e é tudo chutômetro. É tão difícil qualificar o discurso. Por um lado, não é chutômetro. Aquilo que a gente tem consolidado está consolidado e não vai mudar. É aquela história de você construir um prédio e você por um tijolo de cada vez. Você pode por um tijolo novo, que não tinha lá, mas você não vai derrubar tudo o que já estava ali. Tem esse lado, mas também tem esse lado de que aqui os caras não fazem a mais larga ideia do que está acontecendo. Existe um medo de quem divulga a ciência de tentar mostrar muito cruamente e desqualificá-la diante de um público, que, infelizmente, não está preparado para entender essas nuances. Corre o risco de você jogar o bebê fora junto com a água do banho. Por isso talvez a imprensa tenha uma atitude defensiva. E ao valorizar o discurso científico em uma sociedade que é majoritariamente não científica, a gente acaba correndo o risco de passar a imagem avessa do que é a ciência: ao invés de mostrar que ela é uma coisa em transformação, uma coisa em discussão, uma coisa que está sempre buscando se aproximar da verdade com “V” maiúsculo, mas que não tem em absoluto a ambição de chegar lá mesmo, a gente, ao transmitir esse tipo de ideia, corre o risco de que as pessoas achem que a ciência não fala da verdade, na realidade, então ela pode ser descartada. Para mim, é muito assustador que as pessoas cheguem no blog falando que os cientistas ficam gastando dinheiro com isso e aquilo enquanto a gente devia combater a fome, combater não sei o quê. É um absurdo tão grande porque é daí que vai vir o combate à fome. É daí que vai vir o combate à doença.

Em um dos seus livros você abre dizendo o porquê defender aquela verba destinada às pesquisas que a princípio estão longe da realidade. Num caso bem extremo, se você quer levar um homem a Marte. O processo disso pode melhorar o dia a dia da sociedade, com pesquisas de várias áreas. A sociedade pode não entender muito bem como a ciência funciona ou quais são as intenções da ciência, mas ao mesmo tempo ela é científica, no sentido que ela está hoje muito próxima do contato direto com o produto da ciência numa interface tecnológica.
Sem dúvida. Mas o que me assusta é que ela não enxerga. O fulano está escrevendo num computador – e ele está escrevendo num computador porque resolveram um dia mandar o homem para a lua e precisaram miniaturizar o computador, que ocupava uma sala e tinha que fazer caber numa espaçonave – que aquilo tudo é uma bobagem. É uma coisa tão instantânea o contato que o cara nem percebe. A gente tem esse problema enquanto sociedade. A gente está se desconectando das nossas próprias criações. A gente vive num mundo mágico: todo mundo usa celular, todo mundo usa smartphone, rede social, mas ninguém sabe como aquilo acontece. O ser humano está muito preparado para esse pensamento mágico. É muito fácil o cara assimilar que aquilo acontece, mas não importa por que aquilo acontece. Só que quando ele parte desse pressuposto, de que não importa por que acontece, ele cai nesse tipo de contradição de discurso. Porque se ele diz que estão gastando dinheiro à toa, ele não percebe a conexão com a própria vida dele. Isso é uma coisa que aparece com muita frequência em ficção científica: sociedades avançadas que desaprendem, que esquecem como funcionam as coisas que elas usam. Numa medida muito menos exagerada que na ficção, a gente está vivenciando isso. É uma sociedade completamente dependente da tecnologia, mas que não faz a mais vaga ideia de como ela funciona, não sabe de onde estão vindo os milagres. E aí o cara está discursando contra aquilo que está beneficiando a vida dele.

Por um lado, beneficia, mas por outro lado a ciência e a tecnologia não são totalmente emancipadoras.
Quando a gente vai colocar a ciência na balança, por mais críticas que a gente tenha a fazer, a gente precisa lembrar o quanto ela nos traz também, que é muito. Se você rebobinar a fita até meados do século XIX, eu e você provavelmente teríamos morrido porque não existia antibiótico. Você já tomou antibiótico? Eu já tomei muitas vezes. Não tinha vacina. Quanta criança não morria! A sociedade não enxerga o quanto que ela deve à ciência. Como é que o Fleming descobriu o antibiótico? Foi um acidente! Não é que o cara buscava atacar as doenças e tinha ali uma verba. Não. Foi um acidente de laboratório. Esse valor da ciência como exploração básica, como curiosidade básica, que as pessoas não enxergam, precisa ser transmitido. E essa mensagem se sobrepõe às críticas que a gente possa fazer. Talvez por isso a divulgação seja enviesada nesse sentido. É quase como uma troca: você está perdendo, digamos, o refinamento, mas você está ganhando uma mensagem que é mais importante chegar à sociedade. No dia em que formos todos já ilustrados e pudermos discutir todos, de igual para igual, as qualidades e os deméritos da ciência vai ser maravilhoso. E eu sinto muito isso no blog. Como eu vou mostrar o dilema da ciência sem passar a impressão de que a ciência ´é uma perda de tempo porque são hipóteses que nunca são confirmadas? É um dilema muito real, que eu tenho certeza que outros colegas também vivenciam. Você não pode desprezar junto com as dúvidas aquilo que é certeiro na ciência.

Dentro dessa questão de mostrar para todo mundo o que é a ciência, existe também o cuidado de não querer passar o rolo compressor em outras formas de conhecimento, como a homeopatia, por exemplo? O jornalista de ciência precisa ter essa percepção?
A ciência se propõe a responder tudo aquilo que pode ser sondado de maneira experimental, de maneira observacional. No caso da homeopatia, que você citou, acho perfeitamente legítimo que os cientistas testem e verifiquem se há ou não resultado. E a maioria dos estudos de revisão mostra que o efeito é o mesmo do placebo. Ou seja, funciona, como placebo. Seria irresponsável a ciência não divulgar essa informação. Porque às vezes tem o fulano que vai se tratar desse jeito e vai morrer. Acontece. Você vai tratar uma gripe com homeopatia? Ou um resfriado? Beleza. Você provavelmente vai sobreviver e, com o efeito placebo, é capaz de melhorar até mais depressa. Mas se você tiver um câncer e for tratar com homeopatia: má ideia. Eu acho que a ciência tem que dar esse alerta. É obrigação dela sondar tudo aquilo que pode ser sondado. Esse é um aspecto. Existe um outro aspecto: não vir carregado de preconceitos. A gente tem que fazer uma distinção entre o que é a ciência, entre o que é o ideal, e o cientista, o acadêmico naquele ambiente, naquele contexto, fazendo o trabalho dele. A ciência, do ponto de vista ideal, é à prova de bala. Agora o cientista, naquele contexto dele, tendo que publicar para não ser desprezado, para se manter por cima na academia para conseguir verba, para conseguir bolsa, ele às vezes vem carregado de preconceito porque ele é um ser humano como qualquer outro. Tudo isso tem que ser levado em conta. É óbvio que se eu vou discursar em favor da ciência eu vou discursar contra esse tipo de atitude. Não dá para separar o que é ciência, o ideal, do que é o fator científico momentâneo, que vai ter esse monte de coisa. Vai ter problema de fraude, vai ter problema de plágio, de preconceito. Vai ter todo tipo de problema. O que eu acho sobre conhecimentos, digamos, não ortodoxos é que eles têm domínio de aplicabilidade. Se uma forma de conhecimento não ortodoxa resolver pisar no terreno da ciência vai tomar uma sova mesmo. E não tem jeito.

Às vezes o que a ciência não pode explicar ela acaba também desqualificando. Pegando o exemplo da psicanálise, a ciência hoje não tem uma resposta para dizer se isso existe ou não, sobre como funcionaria o inconsciente. Mas tem uma linha de conhecimento, de produção de conhecimento, que daria conta. Você acha que a ciência, quando não consegue dar uma resposta, está certa em desqualificar?
Acho que não. Mas o exemplo que você usa da psicanálise, se você perguntar para um psicanalista, ele vai te dizer que aquilo é ciência. Ele nunca vai dizer que não. É ciência. Uma vez que ele mesmo se qualifica como ciência ele tem que estar submetido aos checks and ballances da ciência. Ele vai ser verificado. E é verdade: hoje a gente não tem instrumentos para checar com uma precisão arbitrariamente alta os resultados da psicanálise. Mas tem coisas que a neurociência já começa a mostrar resultados. Citando a própria psicanálise, o aspecto do inconsciente: está muito claro hoje para o neurocientista, aquele mais duro, que o inconsciente existe – coisas que a gente decide antes mesmo de saber que decidimos. Isso tem problemas, que até são tacanhos, do ponto de vista que a psicanálise se propõe a debater, mas que mostram isso de uma forma muito clara. O seu cérebro decide coisas antes de você ter consciência de que decidiu. Isso, por si só, já mostra que o inconsciente existe. Mas qual é a natureza desse inconsciente? Seguindo na linha da psicanálise, Freud focou muito a questão da psicanálise no aspecto sexual, reprodutivo. E hoje a gente vê que, com estudos de neurociência, isso merece uma ampliação. A gama de estímulos que estimulam nosso sistema de recompensa no cérebro vai além da questão sexual, como a alimentação. Isso enriquece o debate.

Eu me incomodo um pouco quando alguns cientistas usam isso para simplesmente desqualificar aquelas reflexões que vinham de um período no qual você ainda não tinha instrumentos para sondar o cérebro. Isso é uma coisa de preconceito. Se você pegar essa questão do Freud, da psicanálise, você vai ver que ele acertou em algumas coisas e errou em outras, o que é absolutamente natural, do ponto de vista da ciência. Você erra e acerta, faz parte. Ninguém está dizendo que a verdade absoluta está ao nosso alcance. Mas tem muitos neurocientistas que vão ser duros demais e dizer que isso é tudo bobagem, que pode jogar fora e começar tudo do zero. Essa não é uma atitude muito saudável, no meu modo de entender. O que a gente não pode também é criar uma barreira protecionista do outro lado, dizendo que se algo não é convencional um cientista não pode vir encher o saco. Onde tiver interface a ciência vai interagir. A ciência não enxerga barreiras, e eu acho bom que não enxergue barreiras. Sobre a origem do universo, a gente sabe do Big Bang pra frente, mas do Big Bang para trás a gente não sabe de nada. Tem um monte de especulações científicas mas nenhuma delas é verificável, então a gente não sabe de nada. Alguém pode vir dizer que isso é domínio do conhecimento religioso e que a ciência não tem nada com isso? Não. A ciência tem o direito de ir onde ela conseguir ir. A ciência tem seus próprios limites. Tem questões que a ciência jamais vai ser capaz de sondar, por deficiência instrumental, experimental. O arcabouço de construção de conhecimento científico não permite sondar essas questões. Os grandes porquês do universo, a gente pode explicar como as coisas desenvolveram no universo, mas o porquê elas se desenvolveram desse jeito é uma coisa que está um pouco além da ciência. E aí cabem formas não científicas de conhecimento. Essa convivência tem que ser incentivada. Eu sinto que hoje existe uma polarização. Tem o pessoal que admira o conhecimento científico, e traduz isso quase como uma prova de ateísmo, e tem o pessoal religioso, que está tentando descartar o conhecimento científico. Eu acho essa polarização extremamente perigosa.

Primeiro que, como já diria J. Gould, religião e ciência falam de coisas diferentes, então não tem por que uma pisar no pé da outra. Contanto que cada um saiba respeitar a fronteira, está tudo certo. Segundo porque você cria uma guerra dentro da sociedade. Isso eu sinto com muita clareza. Existem aqueles que dizem ser os cruzados da ciência e, portanto, devem demolir a religião, e gente de alto calibre, como o Richard Dawkins, por exemplo, que é extremamente ácido nesse sentido, dizendo que a religião é a pior coisa que aconteceu e nós temos que extirpá-la da humanidade. De um outro lado, nós temos essa reação, que já vem de séculos e séculos, que é de rejeitar a ciência por sentir que ela está diminuindo a área de atuação de Deus. Eu entendo esse conflito do lado religioso, porque o lado religioso realmente foi oprimido ao longo da revolução científica a se colocar somente nas questões metafísicas e esquecer o mundo físico, e não foi fácil para a religião assimilar esse golpe. Mas de outro lado, eu vejo uma tentativa do outro terreno de tentar agora atropelar a religião também. Isso também é absolutamente descabido por que a ciência não pode desprovar a existência de Deus ou provar a existência de Deus. Não é uma hipótese testável, portanto jamais será atingida pela ciência. A necessidade de reacionários religiosos atacarem a ciência é um sintoma disso.

Eles estão precisando se defender porque estão com medo de serem atropelados. Não dá pra defender que um dia a ciência vai acabar com a religião. Não vai. Não faz parte do escopo; é um limite. E cabe aos cientistas também reconhecerem esses limites. E eu acho que o Gleiser [“A Ilha do Conhecimento”] fez um ótimo trabalho em seu último livro ao reconhecer exatamente esses limites. A metáfora da ilha do conhecimento é muito poderosa. Ele sugere que você tem uma ilha, onde estão as coisas conhecidas, e um vasto oceano do desconhecido. E, conforme você vai aumentando a ilha, você também vai aumentando a fronteira que você tem com o desconhecido. A busca científica é uma coisa que não tem fim. E ela amplia o desconhecido. A partir do momento que você vai expandindo a ciência você expande o desconhecido também. E você nunca vai ter uma ilha que tome conta de tudo e que o oceano seja todo desbravado. E ele usa aí argumentos de ordem cosmológica, a questão do universo observável – que a gente não tem como saber o que tem depois do universo observável. A ciência não é sem limites, como muitos querem fazer crer. É perigoso afirmar que a ciência tem limites porque você corre o risco de jogarem ela fora.

Onde você se pauta? Qual a matéria-prima do seu blog?
Tem muita coisa de fora. Às vezes me sugerem coisas. O bacana de você cultivar fontes ao longo de anos é que as pessoas te sugerem coisas. Eu não sou muito provinciano, com a ideia de dar sempre ciência brasileira. Sempre que tem um brasileiro eu acho legal e faço. Mas esse negócio de privilegiar o brasileiro porque é brasileiro eu acho meio bobo, para falar a verdade. A ciência é um empreendimento internacional. Claro que tem um aspecto bom de divulgar um brasileiro, que é o de inspiração, mostrar que o leitor, brasileiro, também pode fazer coisas bacanas. Mas o mérito é o mais importante. E no caso de astronomia, especificamente, a gente tem muita coisa que vem de fora, mais pelo aspecto tecnológico e orçamentário do que pela qualidade. A gente tem uma ótima safra de astrônomos brasileiros, mas a gente sabe que o tempo de telescópio deles é limitado e que eles não são muito numerosos, então é natural que eles acabem não se sobressaindo. Mas é muito legal quando você descobre um paper na PNAS e você escolheu pelo mérito e ver que tem um brasileiro lá e entrevista o brasileiro, como aconteceu tem umas duas semanas.

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