sexta-feira, 2 de outubro de 2015

Série: Jornalistas e blogueiros: Bernardo Esteves

O quarto post da série de entrevistas com jornalistas de ciência que também são autores de blogs é com Bernardo Esteves. Jornalista da revista piauí, Bernardo também escreve no blog Questões da Ciência. Doutor em história das ciências e das técnicas pela Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ), o jornalista já passou por diversas publicações de divulgação científica, entre elas as revistas Superinteressante e Ciência Hoje. É autor do livro Domingo é dia de ciência - história de um suplemento dos anos pós-guerra (Azougue Editorial).

Crédito: Acervo Pessoal / Facebook
Blog do Bruno de Pierro - Você coordena o blog Questões da ciência, vinculado ao site da revista piauí. É sua primeira experiência com um blog de ciência? 
Bernardo Esteves - Na verdade, não foi o primeiro. Antes de ir pra piauí, eu era o editor do site da Ciência Hoje, que segue no ar. Fui um dos idealizadores de uma reforma gráfica e editorial daquele site, acho que em 2009. Foi o momento quando o site Ciência Hoje passou para a Web 2.0, e passamos a contar com uma série de recursos, mais alinhados com o que vinha sendo feito na internet. Passamos a ter comentários, a ter integração com redes sociais e a criação de um blog, chamado Bússola, foi uma das medidas tomadas naquele momento.

Por que optaram pelo blog?
Ele representa a possibilidade de diversificar os formatos para fazer divulgação científica. Já produzíamos textos jornalísticos, feitos pelos repórteres da revista e do site, e tínhamos também colunas, que eram produzidas por pesquisadores. A ideia do blog foi, portanto, divulgar um pouco dos bastidores da ciência, ou comentar um pouco do que estava sendo dito em outros espaços da internet. Era uma maneira de diversificar e tornar mais versátil a divulgação científica que a gente vinha fazendo.

Na revista piauí, a criação do blog também foi responsabilidade sua?
Minha chegada lá coincidiu com a época em que a revista estava promovendo a criação de novos blogs sobre temas variados, como música e culinária. Eu tinha vontade de continuar falando de ciência em um blog e, paralelamente, a revista tinha esse desejo de aumentar sua cartela de opções. Unimos o útil ao agradável e lancei, em 2011, um blog de ciência.

No blog Bússola, você já tinha a preocupação de mostrar a ciência de uma maneira diferente da forma como ela é divulgada em outros meios? Tinha, mas de uma maneira geral. Não apenas no blog. Queríamos tentar mostrar a produção do conhecimento cientifico em todas as suas dimensões, tentar romper com essa visão muito voltada para o resultado, como você diz em sua pesquisa. Mas de maneira geral, essa preocupação não se limita só ao blog, e se manifesta também nas reportagens publicadas no impresso. Desde a formulação das hipóteses, os resultados desenhados, etc; o blog facilitava a abordagem disso. O blog certamente ajuda a dar visibilidade a todo esse universo que está em torno dos resultados e das conclusões de pesquisas.

Já o blog Questões da ciência tem qual objetivo?
É um espaço para falar de bastidor. Também é para falar de temas que considero importantes: publicação científica, má conduta científica, fraude e ética na ciência. No blog eu discuto, por exemplo, o presente e o futuro da revisão por pares, novas iniciativa que, de alguma forma, chamam a atenção para a forma como a publicação cientifica é feita hoje. Minha proposta é discutir aspectos gerais do universo da produção do conhecimento cientifico, mas que não estivessem restritos à questão dos resultados. Foi esse o objetivo.

Mostrar a ciência como uma construção, um processo?
De certa forma sim. Além disso, o blog serve como uma espécie de repositório de materiais que apuro para uma reportagem mais longa que estou produzindo para a revista piauí. Em reportagens longas, chego a passar três meses trabalhando em uma única matéria. Nesse processo, acabo levantando muitas informações interessantes que nem sempre acabam entrando na reportagem. Várias vezes, portanto, aproveitei o blog como espaço para incluir trechos que ficaram de fora das reportagens e que eu achava que mereciam vir a público. O blog complementa a reportagem.

Tocar em temas como integridade científica, ética e limites da ciência são complicados. O seu trabalho, com esse viés mais crítico, é recebido com certa resistência por parte da comunidade científica?
De certa maneira sim. Se você ligar para um pesquisador para pedir uma entrevista sobre o último estudo dele, a receptividade será uma. Se você procurá-lo para comentar uma acusação de ter adulterado dados de algum artigo publicado por ele, a receptividade será outra. No exercício do jornalismo, encontro muito essa resistência, inclusive das instituições científicas. O último post que eu publiquei é sobre má conduta científica, e tive bastante dificuldade. Mesmo os editores da revista que retratou um dos artigos que mencionei no post se armam de precauções, o que é normal. Tentei ouvir as universidades envolvidas, no caso a Estadual de Maringá e a Unicamp. Não tive retorno delas, sequer um pronunciamento oficial, para saber como elas estavam conduzindo as investigações. Há também diferenças quando o blog é feito por jornalistas e por cientistas. Não sei se você vai abordar isso no seu estudo.

Sim, é um dos pontos que discuto.
Exatamente. Porque alguns teóricos tendem a colocar o jornalismo de ciência como um subconjunto da divulgação científica. Eu tenho um pouco de ressalva quanto a esse tipo de visão.

Sim. Eu acho que o jornalismo de ciência não pode ser encarado dessa forma.
Há diferenças entre a divulgação científica feita por um cientista e a divulgação científica feita por um jornalista. O cientista, de certa maneira, parece ser movido pela ciência. Ele está a serviço da ciência. Já o jornalista não deve estar a serviço da ciência, mas sim do leitor. Se o trabalho do jornalista resultar no levantamento de informações que podem apresentar a ciência sob uma luz menos favorável, paciência. Isso não pode frear o trabalho do repórter. O jornalista não deve atuar como porta-voz da ciência como, muitas vezes, faz o cientista. Independentemente de o jornalista ter ou não um blog. O papel do jornalista é o de ser vigia, um vigilante, e não um “torcedor” da ciência.

Mas você acha que isso ocorre na prática? Tenho a impressão de que muitas vezes os jornalistas de ciência posicionam-se nessa função de “torcer” pela ciência, comprando o discurso científico.
Concordo. Para cobrir ciência, o jornalista precisa entender por dentro como a coisa funciona. Não precisa necessariamente entender a fundo o tema que ele está discutindo, mas precisa ter um background. É, portanto, inevitável que parte da cobertura de ciência que vemos por aí esteja contaminada por uma apreciação não muito crítica do fazer científico. Se você pegar um mês de notícias de ciência, é fácil identificar trabalhos em que, na prática, o repórter atua como porta-voz da ciência, até por falta de ferramentas para questionar o que está noticiando. Isso é uma questão de formação em parte. Também é questão de postura. Não são muitos os jornalistas que adotam uma postura mais crítica em relação à ciência, ou que assumem isso publicamente. Repare que temos o crítico de política, o crítico de economia, o crítico de cultura; mas o crítico de ciência praticamente não existe entre os profissionais do jornalismo. Muitos dos repórteres que trabalham com ciência acabam atuando mais como relatores, passando o conteúdo sem uma apreciação mais crítica, sem ponderar outros aspectos, sem entender os conflitos de interesse envolvidos na ciência.

Percebo que essa postura mais crítica está mais evidente nos blogs de ciência feitos por jornalistas.
Concordo. Acho possível sustentar essa tese. Essa dimensão crítica está crescendo, mas não tanto quanto o desejável. E realmente aparece mais nos blogs do que nas reportagens. No entanto, digo isso com base na minha percepção, não em uma observação sistemática. É preciso entender se isso ocorre só em blogs mesmo. Mas diria que sim, estamos assistindo a um movimento de crescimento da visão crítica da ciência brasileira e acredito que os blogs têm papel importante nisso.

Em temas como transgênicos e aquecimento global fica evidente o conflito entre posições científica e não-científicas. Em assuntos que essa tensão é mais latente você acha que os blogs de ciência conseguem passar uma visão ampla ou acabam tomando parte da ciência de modo acrítico?
Depende. Acho difícil generalizar nesse caso. Vou pegar o caso da mudança de clima, que você citou, pois fica um pouco mais claro e fico um pouco mais à vontade falar desse tema. É um tema complicado. A lógica da imprensa pede que o repórter ouça os dois lados, mas muitas vezes há muito mais do que dois lados. Mas a imprensa favorece que você tenha um lado e outro, e um embate de ideias, no caso, sobre a aceitação da influência humana sobre o clima. A imprensa tem sido muito criticada por isso e o panorama que a gente observa entre os estudiosos da área é muito diferente daquele que se vê no debate público. Então, aqueles que negam a influência humana no clima têm espaço muito maior na imprensa e em outras dimensões do debate público do que na ciência. O numero citado é esse: 98% dos que publicam sobre o tema atribuem as causas à influência humana e só 2% atribuem a causas naturais. E, apesar disso, há um trabalho pesado de lobby daqueles que têm seus interesses contrariados pelas reações que se pede ao aquecimento global, e estou falando da indústria fóssil, do lobby do petróleo, do gás natural etc. No Brasil é mais tênue, porque os céticos do clima aqui não estão ligados à indústria do petróleo como é caso dos Estados Unidos. Mas, seja como for, a negação do clima é amplificada na imprensa, onde eles ocupam um espaço que não reflete o espaço que ocupam na academia. Então, tentando resgatar sua pergunta original, nem sempre é fácil para o jornalista colocar no debate as forças com o peso devido. Esse é um dilema. Quando o conhecimento científico se coloca em choque com divergências que surgem em face de outras formas de saber, é problemático para um repórter que está cobrindo a área.

Em sua tese de doutorado você trabalhou muito com a Teoria Ator-Rede, especialmente com a obra de Bruno Latour. O que ela pode ensinar aos jornalistas?
Vejo um potencial imenso da sociologia da ciência, em específico na Teoria Ator-Rede, para informar o fazer jornalístico. No caso do clima, acho que os estudos sociais da ciência e a Teoria Ator-Rede me ajudaram muito a entender a forma como se construíram as certezas da ciência em relação à mudança do clima e à influência humana sobre o clima. Você começa a entender uma coisa que acho essencial para entender a construção do conhecimento científico: a ciência muitas vezes é percebida como um conjunto de fatos que estão livres de qualquer contingência, fatos que seriam independentes das circunstâncias nas quais foram consolidados. Quando falamos que a temperatura média da Terra aumentou 0,8 graus Celsius desde 1880, tendemos a ler esse fato na imprensa como um fato livre, que está voando por aí, livre de qualquer circunstância. Quando você passa a entender a quantidade absurda de cientistas, de instrumentos, de entidades humanas e não-humanas que estão mobilizados na construção dessa afirmativa, entende-se a força que ela tem. Entendemos como esse é um fato sólido e difícil de ser confrontado. A Teoria Ator-Rede ajuda a entender a força dessas afirmações e as circunstâncias de sua produção. Compreendemos também que os fatos científicos têm historicidade, estão vinculados a uma rede de atores humanos e não-humanos, instituições, moléculas, diplomatas; enfim, é uma rede muito grande de atores que está por trás disso. Considero-a uma ferramenta essencial para os analistas da ciência entenderem a construção dos fatos científicos.

Mas a Teoria Ator-Rede também tem suas limitações.
Ela suscita críticas por pessoas que, muitas vezes, não leram com calma e não pararam para refletir o que está por trás dessa teoria. Latour e os teóricos que o seguem são vistos, muitas vezes, como pessoas contrárias à ciência. Mas ultimamente Latour está muito engajado nessa questão do aquecimento global. Em seu último livro, ele relata uma conversa com um cientista e depois conclui: é hora de decretarmos trégua; temos, agora, o mesmo inimigo. Ele diz ainda: vocês, cientistas, e nós, estudiosos dos cientistas, temos que parar de conversa fiada. Ele notou que os céticos do clima estão usando alguns dos argumentos usados pelos estudos sociais da ciência para desconstruir a afirmativa dos cientistas e, por isso, Latour está em um momento de grande mobilização e ativismo.



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