quarta-feira, 16 de dezembro de 2015

Fosfoetanolamina e os "cabeças de planilha" na ciência e na medicina

Dia desses, fui visitar minha avó. Ela tem Alzheimer há alguns anos. Interage com as pessoas, sorri e diz uma palavra ou outra, mas já não reconhece quem está à volta. Naquele dia, ela estava mais agitada na cama. Desesperado, querendo acalmá-la, saquei o celular do bolso e, aproximando o aparelho da orelha direita dela, deixei soar "Clair de Lune", do compositor francês Claude Debussy (1862-1918).

Minha avó arregalou os olhos, abaixou os braços. O humor se estabilizou num calma demonstração de agrado em relação ao som. Deixei o celular perto do travesseiro dela e, aliviado, fui à janela. Lembrei que, meses antes, visitando uma casa de repouso para idosos para escrever uma reportagem sobre musicoterapia, tive a oportunidade de presenciar uma sessão - para não dizer festa - em que músicos de um projeto coordenado por um maestro visitam asilos, hospitais e orfanatos e levam música a esses ambientes geralmente pouco agradáveis.

Na época em que escrevi a reportagem, me cobraram evidências científicas que comprovassem que a musicoterapia realmente pode melhorar os quadros de depressão em pacientes. Cheguei a citar um estudo ou outro que apresentam, por meio de metodologias que determinam matematicamente os níveis de depressão, resultados segundo os quais pacientes em ambientes hospitalares têm os níveis de depressão reduzidos quando participam de projetos de musicoterapia. No entanto, análises desse tipo são raras, uma vez que o efeito da música no indivíduo é algo muito subjetivo, difícil, portanto, de ser detectado ou medido de acordo com os critérios e padrões científicos.

Às pessoas que me cobraram esse tipo de abordagem, sugeri que tentassem ampliar um pouco o campo de visão e olhassem para o fenômeno da musicoterapia não com as lentes da ciência ortodoxa, mas com os olhos nus de seres humanos que somos. É simples: há um impacto positivo inegável na vida dos pacientes que são submetidos a terapias musicais. Basta visitar um desses lugares para ver idosos se movimentarem, sorrirem, inclusive aquele vovô rabugento. Como representar isso em gráficos, números, estatísticas? Não sei, mas os resultados, vivos, notórios, pulsantes, estão aí, diante dos nossos olhos.

Nem tudo cabe dentro de um artigo científico. Nem sempre os parâmetros da ciência são capazes de fornecer respostas. Quando isso não acontece, o que deve ser feito? Os bons cientistas (que são poucos, em um mar de pesquisadores tecnólogos) irão reconhecer as limitações de suas ferramentas diante de um fenômeno ainda misterioso ou pouco conhecido e farão de tudo para compreendê-lo, sem desqualificá-lo.

Os maus cientistas (sim, eles existem, e não são raros) primeiramente desqualificarão o objeto que por eles não pode ser medido, analisado, compreendido ou explorado. Depois, caso haja uma pressão na sociedade ou mesmo de setores da própria comunidade científica, irão se debruçar sobre o objeto, tentando adaptá-lo aos moldes da ciência. Se o objeto, ou fenômeno, não puder ser explicado pela ciência, imediatamente será rebaixado ao posto de "não-científico", "charlatanismo", "crença", "placebo", etc.

Não defendo charlatões. Também não sou criacionista, antes que me acusem de inimigo da ciência.

O tom de meu argumento é o seguinte: quando algo ainda não pode ser comprovado cientificamente, a resposta deve ser no sentido de desqualificar?

Se a música anima os velhinhos, que visivelmente se sentem mais dispostos, animados e contentes, quem é o pesquisador que dirá o contrário? Ou que se sente no poder de meter um carimbo "atestando" que isso ou aquilo funciona, do ponto de vista científico?

Há exceções? Sim. Fosfoetanolamina. Não vou explicar do que se trata aqui, muito menos fazer resumão dos últimos acontecimentos em torno da fosfo, porque há notícias aos montes na internet. Diferentemente da música, o caso da fosfo exige sim mais cuidados científicos. Se eu pegar meu contrabaixo elétrico, ir até uma casa de repouso, tocar as coisas esquisitas que toco e ninguém curtir, o máximo que vai acontecer é: pessoas dormirem, vaiarem, atirarem tomates e eu serei convidado a me retirar. Mas ninguém vai morrer.

Com a fosfo, é diferente. Sem conhecimento técnico dos efeitos do componente no organismo de pacientes que utilizam essa substância como tratamento contra o câncer, há risco de que ela possa causar mais mal do que bem - talvez a médio e longo prazos.

O que diferencia os cientistas e entusiastas da fosfo dos cientistas que defendem que a substância não seja utilizada enquanto não sejam concluídas todas as etapas de testes clínicos é o seguinte: os primeiros têm a visão do todo, ou seja, da complexidade que envolve o câncer, inclusive das implicações subjetivas nas vidas de pacientes e familiares. Os últimos também conseguem visualizar um mundo complexo, mas o mundo complexo sob a óptica científica apenas. Há ainda os médicos, que também se posicionam sobre o assunto.

O caso da fosfo e da música que botei para minha avó ouvir são parecidos, em certa medida. Desesperado ao ver minha vó se debatendo, agitada, gritando, agi por impulso: dei a ela música, que era o que eu tinha em mãos. Eu não sou pesquisador do Alzheimer; talvez um especialista dissesse a mim: não adianta você botar música, isso não mudará o quadro da doença. Ou diria: que bom que a música ajudou, embora não possamos comprovar que isso dará certo com outros pacientes.

No caso da fosfo, diante da ausência de um medicamente que de fato combata o câncer, parentes e pacientes recorrem ao que há disponível e que está dando resultado, mesmo que ainda não tenha sido legitimado pela ciência. Sabem dos riscos, mas não querem mais sofrer.

É justo dizer a eles: esperem, ainda não concluímos todos os testes?

Do ponto de vista ético sim. Mas no caos da dor, o que vale é ter acesso à abundância de possibilidades, muitas das quais carentes de respaldo científico.

Aceitamos que um rapaz maior de idade possa fumar um cigarro com milhares de substâncias que foram cientificamente comprovadas tóxicas, usando o argumento de que o indivíduo tem o direito de decidir sobre o próprio corpo. Por que não aceitar que o mesmo rapaz, que depois pode ter um câncer de pulmão, não possa ter o direito de utilizar a fosfo, como saída última para a cura?

Tal qual algumas religiões se posicionam contra o aborto, e os críticos contestam afirmando que as mulheres é que têm direito de decidir o que fazer com o próprio corpo, não estariam alguns cientistas agindo de maneira semelhante?

É evidente que os testes clínicos devem ser feitos. E não se trata de um debate entre "defensores da ciência" e "inimigos da ciência", até porque a fosfo é um produto da ciência.

Mas um produto que, uma vez inserido num contexto social, ganha uma autonomia que escapa à própria ciência. Porque o mundo é dessas coisas, nem sempre exato. Nem sempre testável e nem sempre certo.

Nem sempre a ciência e a medicina ortodoxas darão conta de toda a complexidade da vida.

O caso da fosfo tem nos ensinado que uma simples substância - portanto um ser "não-humano" - tem autonomia suficiente para provocar uma revolução na sociedade, independentemente do consenso científico ou dos padrões da medicina. Os debates em torno dela mostram que em muitas situações o método científico não atende às demandas urgentes da sociedade. Quando isso não acontece dentro de um prazo curto, como nesse caso, a melhor saída é mandar prender os envolvidos por tamanha ousadia: tentar salvar vidas?

Na ciência, assim como na economia e em outras áreas, há aqueles que podemos apelidar de "cabeças de planilha". A expressão é muito usada pelo jornalista Luis Nassif. Assim como há economistas que tentam entender a economia por meio apenas de planilhas, sem levar em conta variáveis externas e sem capacidade de ver e entender fenômenos de mercado, há também os cientistas que agem de forma semelhante, que se agarram em métodos e parâmetros mesmo que a realidade externa demande mais flexibilidade e novas dinâmicas.



  

15 comentários:

  1. A melhor saída é não arriscar a vida e a saúde dos pacientes enquanto não temos melhores dados.

    []s,

    Roberto Takata

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    1. Arriscar a vida de um doente terminal é negá-lo a tentativa do uso da fosfo, pois a morte ele já tem como certa.

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    2. Roberto, se algum ente querido da sua família estivesse com esta doença, tenho certeza que a sua opnião seria bem diferente!! Egoísta!

      RESOLUÇÃO - RDC Nº 38, DE 12 DE AGOSTO DE 2013
      Aprova o regulamento para os programas de acesso expandido, uso compassivo e fornecimento de medicamento pós-estudo.
      http://bvsms.saude.gov.br/bvs/saudelegis/anvisa/2013/rdc0038_12_08_2013.html

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    3. Unknown,

      Egoísmo? Egoísmo é sentimento de busca do benefício próprio. Não ganho nada com a liberação ou não da fosfoetanolamina sem testes prévios devidos.

      Como eu escrevi no meu texto em resposta a Bruno, o uso compassivo deve ser considerado. Mas com uma visão mais abrangente do que apenas "ir e ver".

      []s,

      Roberto Takata

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    4. Francisco da Silva: "Arriscar a vida de um doente terminal é negá-lo a tentativa do uso da fosfo, pois a morte ele já tem como certa."

      Não. O diagnóstico de câncer implica em risco alto de morte sem tratamento ao fim de algum tempo. Mas não é sentença de morte. Entre 10 e 25% dos casos de câncer apresenta remissão espontânea.

      Sem os testes devidos não sabemos se o composto não piora até mesmo a probabilidade dessa remissão.

      Bom ter em mente que há estudos que, pelo menos para algumas linhagens de células tumorais, encontraram um efeito de *multiplicação* de células cancerosas com a administração da fosfoetanolamina.

      E.g. http://www.jstor.org/stable/70534
      ----

      []s,

      Roberto Takata

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  2. http://neveraskedquestions.blogspot.com/2015/12/fosfoetanolamina-minhas-cordiais.html

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    1. Se algum ente querido da sua família estivesse com esta doença, tenho certeza que a sua opnião seria bem diferente!! Egoísta!

      RESOLUÇÃO - RDC Nº 38, DE 12 DE AGOSTO DE 2013
      Aprova o regulamento para os programas de acesso expandido, uso compassivo e fornecimento de medicamento pós-estudo.
      http://bvsms.saude.gov.br/bvs/saudelegis/anvisa/2013/rdc0038_12_08_2013.html

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    2. Quanto à necessidade de ter um parente ou amigo próximo vítima de câncer:

      "'A abordagem de Chierice é de um milagreiro', afirma o jornalista Alceu Castilho, de 45 anos. O pai dele morreu de câncer, em 2009, dois meses depois de descobrir a doença. Como o câncer estava em estágio avançado, os médicos haviam sugerido apenas cuidados paliativos, para dar conforto. O pai de Castilho quis tentar as cápsulas e recusou qualquer outro tipo de intervenção. 'Ele teve um final de vida com muita dor', diz Castilho. 'Esse irresponsável está jogando com a esperança e a vida das pessoas.'"
      http://epoca.globo.com/vida/noticia/2015/10/fosfoetanolamina-sintetica-oferta-de-um-milagre-contra-o-cancer.html
      ---------

      []s,

      Roberto Takata

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  3. Bruno, perfeita explanação!!! Parabéns, afinal de contas, ainda não conseguiram nos explicar que efeito danoso à saúde pode trazer a fosfoetanolamina sintética para os pacientes que estão desenganados pela medicina tradicional, sem condição de se submeter a mais nenhuma outra terapia convencional. Belo texto!

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  4. De um modo geral os medicamentos farmacêuticos são aprovados pelas entidades reguladoras e lançados no mercado sem terem sido submetidos a testes de longo prazo. Actualmente as empresas farmacêuticas até conseguem a sua aprovação sem submeterem às entidades reguladoras todos os testes a que os submeteram. Testes desfavoráveis podem ser pois omitidos.

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    1. Esse estado de coisas valida o relaxamento do procedimento para outros compostos?

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  5. RESOLUÇÃO - RDC Nº 38, DE 12 DE AGOSTO DE 2013
    Aprova o regulamento para os programas de acesso expandido, uso compassivo e fornecimento de medicamento pós-estudo.
    http://bvsms.saude.gov.br/bvs/saudelegis/anvisa/2013/rdc0038_12_08_2013.html

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  6. Tem gente que perde tempo de dizer que não ganha e nem perde, mas faz questão de dar opinião contrária....quem entende isso!!!Homo sapiens sapiens sabidão entende de todos os assuntos...kkk

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    1. Pela sua lógica, vc está recebendo pra defender a fosfoetanolamina.

      []s,

      Roberto Takata

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  7. Seria um belo texto se apenas isso fosse a verdade, porém sabemos que a tal ciência carece de lisura como tudo que envolve dinheiro. Acreditar em Método científico é uma crença limitadora como outra qualquer, pois ela também é falha, mas não só pela limitação da própria metodologia como bem citado, mas pela manipulação dos dados para atender não a verdade científica momentânea....pois apenas isso é o que podemos esperar....até a próxima verdade....mas pior que isso, a ciência não busca a verdade busca faturar, manipula dados, lê as estastisticas como mais interessar. Então apesar de belo texto, não concordo que a fosfo seja um problema de metodologia e sim vítima da máfia branca e contrária aos interesses da cultura da doença. Com um olhar mais abrangente veremos que os químios não são tão científicos assim....ou será que são.....kkkkkkkkkkkkk

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