segunda-feira, 11 de janeiro de 2016

24 horas sem Bowie


Lembrado pela "multifacetada" carreira na música e no cinema, David Bowie sempre me despertou a curiosidade por outro motivo. Imagino, por exemplo, como teria sido se, em vez de seguir no caminho que seguiu, tivesse optado por uma vida, digamos, mais 'normal'. Teria feito parte de uma banda aqui, outra ali, tocado em alguns bares, e conciliado isso com uma vida de assalariado, trabalhando em alguma agência de publicidade. Seria um artista de fim de semana? Um pai de família que "arranha um violão de vez em quando"? 

Isso me leva a pensar mais longe. Teria sido possível David Robert Jones nunca ter se tornado David Bowie?

Em Juventude, o escritor sul-africano John Maxwell Coetzee conta a história do jovem John, recém-formado em matemática, cujo maior sonho é se tornar artista, mais precisamente um poeta. Tornando-se artista, pensa John, ele teria acesso a uma vida mais interessante, movida a grandes paixões, cercado de mulheres lindas. Elas, aliás, seriam responsáveis pelo "fogo sagrado" da inspiração artística. 

Em busca disso tudo, John deixa a África do Sul, em meados dos anos 1960, e parte para Londres. Lá, pensa ele, teria melhores condições de criar, de ser visto, de conhecer gente e levar uma vida semelhante a da maioria de seus escritores favoritos, marca pela boemia e pela agitação intelectual.

J.M. Coetzee, autor de Juventude
Mas sem dinheiro, John busca emprego na então promissora área de programação de computadores. É contratado pela IBM em Londres, onde depara-se com uma vida tediosa, burocrática, pouco inspiradora. São poucos os momentos em que John demonstra alguma reação. O medo de não dar certo, de fracassar na literatura e de precisar retornar para a casa dos pais fazem com que o jovem perca, aos poucos, o desejo de ser escritor. Vem a conformação, a frustração.

E se o personagem da obra de Coetzee tivesse reagido, desistido da IBM, da programação de computadores? Havia chances de dar certo, assim como poderia fracassar. Quem sabe?

O fato é que quando li esse livro, imediatamente comecei a refletir muito sobre essa questão: o que faz um artista vir a ser um artista. A parte as questões subjetivas ligadas à aptidão, ao talento, criação familiar, influências, condição econômica e social, há, em nossa cultura civilizada, a prevalência de uma espécie de senso de sabotagem, segundo o qual certos desejos são compartimentados na esfera dos sonhos, da possibilidade - nunca da realização concreta.

Chaplin, por exemplo, era de uma família extremamente pobre. Tentou seguir no cinema e deu certo. poderia ter sido diferente? Nesse caso, jamais saberemos. E quantos outros "Chaplins" tentaram, mas não conseguiram? E há também aqueles com talento muito inferior, que conseguem.

O fato é que, tanto na ficção de Coetzee quanto na realidade de Bowie e de outros artistas icônicos, há um denominador comum: a experiência. Antes de desejar qualquer coisa, as pessoas desejam experimentar. E esse é o desejo, ao meu ver, mais importante, algo como um desejo primitivo. A experiência é capaz de nos livrar da banalidade, enquanto a não-experiência, ou seja a negação da experimentação primitiva, pode nos empurrar para o abismo da padronização, da conformidade. 

Em Juventude, John oscila entre momentos de pura experimentação e de negação da experiência. Essa última ocorre quando percebe que talvez não tenha talento. Na verdade, a sensação de não ter talento para a escrita pode ser produto da pressão à sua volta: como, em sã consciência, um jovem rapaz com futuro brilhante em uma grande multinacional como a IBM pode ser louco de pedir demissão e se arriscar em algo incerto.

A sociedade que abomina a loucura e o incerto já deve ter desabilitado muitos artistas. Quando não aniquilado mentes criativas, cuja inquietude não cabe na mesa de um escritório da IBM.      

   




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