quarta-feira, 3 de fevereiro de 2016

O que é científico para Rubem Alves

Uma sabedoria de vida foi calada: não era científica. Rubem Alves tinha um colega com todas as credenciais e titulações, que estava escrevendo um livro no qual contava o que havia aprendido ao longo da vida. O texto, no entanto, não estava sendo muito bem aceito na academia. "Eles dizem que o que escrevo não é científico".

Para Rubem Alves, o caso sugere que as inquisições de hoje, não é mais a Igreja que as faz.

O que é científico? É preciso dizer que o método científico é uma das principais preocupações dos filósofos, desde pelo menos o século 17. É graças ao sucesso do método científico que a ciência moderna conquistou posição de autoridade. O termo "científico" é frequentemente empregado em diversas situações para dizer que algo é bom, tem qualidade comprovado, é confiável. Creio que a maior parte dessa autoridade se deve mais ao sucesso prático do conhecimento científico, gerado a partir do método. As bases são: observação, experimentação e indução.

As observações são, a rigor, neutras: antes de qualquer especulação ou teorização, o cientista deve apenas observar. As induções consistem em obter proposições gerais a partir de proposições particulares. Proposições gerais são as leis científicas. Proposições particulares são os relatos produzidos pela observação.

Isso é o que podemos chamar de visão comum da ciência, como lembra Silvio Chibeni, professor do Departamento de Filosofia da Unicamp.

Para explicar o que é científico, Rubem Alves contava uma história.

Havia uma aldeia às margens de um grande rio, que fascinava e dava medo, pois muitos haviam morrido em suas águas misteriosas. Por conta disso, os aldeões construíram altares a suas margens, e neles o fogo sempre estava aceso. Em torno desses altares, as pessoas cantavam e declamavam poemas.

O rio era morada de seres misteriosos. Alguns saltavam e mergulhavam, e assim desapareciam. Outro apenas revelavam suas sombras deslizando nas profundezas, sem subir à superfície. Nas conversas à roda do fogo, contavam-se histórias de sereias, monstros e dragões.

Tudo, no entanto, eram suposições. Os moradores da aldeia nunca haviam conseguido capturar uma única criatura do rio.

Tudo o que havia sido produzido a partir das suposições - magias, encantações, religiões - foi inútil. Por gerações, aliás.

Até que um dia um aldeão teve uma ideia: criar um objeto para pegar criaturas do rio. Ele teceu uma imensa rede, e isso foi motivo de chacota na aldeia. Todos riram dele. Sem dar bola para isso, o aldeão amarrou a rede como pôde e foi dormir.

No dia seguinte, ao puxar a rede, viu que nela estava enroscado uma das criaturas, um peixe dourado.

Aqueles que haviam passado anos tentando pegar uma criatura dessas usando feitiçaria ficaram irritados. Acreditaram que o aldeão tinha utilizado algum outro tipo de magia e então o ameaçaram com a fogueira.

Outro ficaram alegres e quiseram aprender a tecer redes também. Em pouco tempo, muitas redes foram fabricadas. Várias foram lançadas ao rio. E muitos outros peixes foram capturados.

As pessoas que fabricavam e pescavam logo se tornaram importantes na aldeia. Elas tinham em mãos a técnica da confecção de redes e o método da pesca. Isso porque havia peixes que serviam como alimento, outro eram usados como medicamentos e até para fertilizar campos. Essas poucas pessoas passaram a ser respeitadas e até invejadas.

Sabendo do poder que tinham, esses "pescadores fabricantes" se organizaram em uma confraria. Para pertencer a ela, era necessário saber tecer redes e pescar.

Com o tempo uma coisa estranha aconteceu. De tanto tecer redes, pescar e falar sobre peixes e redes, os membros dessa confraria acabaram esquecendo a linguagem que os habitantes da aldeia sempre haviam falado e continuavam falando.

Rubem Alves cita Wittgenstein, que dizia: "os limites da minha linguagem denotam os limites do meu mundo."

Assim, os membros da confraria passaram a acreditar que só era real aquilo sobre o que eles conseguiam falar, ou seja, o que era pescado com suas redes. Qualquer coisa que não fosse peixe, ou que não fosse apanhado com suas redes, eles desqualificavam. "Não é real."

Quando falavam a eles sobre nuvens, por exemplo, eles perguntavam: com que rede isso foi pescado?

Quando falavam de cores, cheiros, sensações, amor, poesia, a resposta era a mesma: com o que isso foi pescado? Não foi com rede? Então não é real.

As redes eram boas? Claro, sem dúvida. Os peixes eram igualmente bons? Com certeza. No entanto, as redes não serviam para pescar tudo o que existia no mundo.

Há criaturas mais leves, mais sutis e delicadas, mas absolutamente reais.

No livro que o colega de Rubem Alves escrevia, havia a história de um sabiá. O sabiá, que ele mesmo criara. O rapaz sabia muito sobre o sabiá, e muito desse conhecimento era fruto de observações não-científicas: o homem ouvia o cantar do pássaro, interagia, brincava. Os editores do livro perguntaram: o que há de científico nisso?

"Cientistas são aqueles que pescam no grande rio. Mas há também os céus e as matas que se enchem de cantos de sabiás. Lá as redes dos cientistas ficam sempre vazias", concluiu Rubem Alves.




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