quarta-feira, 13 de abril de 2016

Jornalismo especializado em lavar as mãos

No jornalismo, há quem se especialize em cobrir política. Há quem opte por economia, cultura, moda, ou ciência. E por aí vai. Em todas as especialidades, porém, há quem ainda se especialize em lavar as mãos. Ou seja, seguir fórmulas pré-concebidas de jornalismo, tais como ouvir os dois lados ou ouvir quem realmente entende do assunto. O problema é que tais receitas nem sempre podem ou devem ser seguidas à risca, mas busca-se segui-las como forma de garantir o "bom jornalismo". Lavo minhas mãos, fiz minha parte.

Explico, seguindo o exemplo do jornalismo de ciência, ao qual estou acostumado. Em uma pauta sobre mudanças climáticas, por exemplo, quem deve ser entrevistado? Logicamente, pesquisadores que defendem a ideia de que as mudanças são ocasionadas em boa parte pela ação do homem. Eles apresentarão dados, evidências e estudos para sustentar essa visão, que é a mais aceita, a teoria mainstream.

Nessa mesma pauta, caberá dar espaço aos céticos - aquele grupo minoritário de pesquisadores que acreditam que a ação humana não interfere no clima? Muitos cientistas e jornalistas especializados em ciência acreditam que não, pois basicamente se trata de um discurso com pouco embasamento científico, baixa aceitabilidade entre as instituições científica.

Os cientistas que se opõem aos céticos reclamam que os jornalistas às vezes dão espaço desnecessário a essa turma. Os jornalistas, por sua vez, dizem ceder espaço aos céticos pois aprenderam na faculdade que devem ouvir os dois lados.

Nesse caso particular, entendo que tanto cientistas quanto jornalistas podem estar equivocados. Os pesquisadores que defendem a visão de que o ser humano é responsável pelas mudanças climáticas acreditam que os céticos têm pouco a contribuir no debate. Acreditam também que eles abusam do discurso retórico, e que isso não é fazer ciência. O fato é que os céticos são, sim, cientistas. Têm os mesmos direitos, por exemplo, de acessar fontes de apoio à pesquisa. Além disso, é do embate entre controvérsias que a ciência avança.

Já os jornalistas deveriam entender que, ao contrário do que parece, a ideia de dois lados é simplista, muitas vezes utilizada como ferramenta de linguagem para dar ao texto uma aparência de pluralista. Em alguns casos, botar o outro lado no texto serve apenas como efeito, simulacro de uma imparcialidade que não existe. No caso do clima, talvez nem sempre seja o caso de dar voz aos céticos, se o desejo do jornalista for de apenas mostrar que seguiu as regrinhas do bom jornalismo. Os céticos devem aparecer se de fato tiverem algo de interessante a dizer. Se a reportagem puder tratá-los com seriedade, tal qual os demais pesquisadores são tratados.

Caso contrário, as minorias sempre aparecerão na reportagem apenas de forma decorativa.

Outro exemplo: reportagens que tratam da pesquisa com biodiversidade. Há vários atores envolvidos nisso: cientistas, empresas farmacêuticas e de cosméticos, órgãos de governo, órgãos jurídicos. Há também os povos indígenas, pequenos agricultores e comunidades tradicionais, como os quilombolas, que detém os conhecimentos associados a plantas, animais e microrganismos nativos.

Numa reportagem sobre a produção de um novo medicamento feito a partir de uma planta da Amazônia, por exemplo, devem ser ouvidos todos esses atores (empresa, pesquisadores, governo, índios etc.)? Nem sempre. Depende do objetivo da pauta. Se é lançar luz sobre a tecnologia em si, provavelmente os índios que detém o conhecimento sobre a planta ficarão de fora. É o que geralmente acontece. Muitos jornalistas de ciência têm consciência da complexidade que circunda os temas de que tratam, mas acreditam que se abrissem espaço para fontes não-científicas, estariam "fugindo" do jornalismo científico. Por se denominarem jornalistas de ciência, está de bom tamanho ouvir apenas aqueles que estão do lado da pesquisa? Talvez seja o que muito pensam.

Contudo, uma reportagem pode ser de ciência e também abrir espaço para que outros atores não-científicos possam dizer o que pensam de um assunto que é comum a eles e também à ciência. 

Há outras dimensões em torno de uma questão complexa. Na falta de espaço ou de tempo para dar conta dessa complexidade, caberia apenas indicar ao leitor que, sim, a reportagem é apenas um recorte, um grão de areia.




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