terça-feira, 6 de setembro de 2016

Da importância da prolixidade

Foi no final de uma aula de redação na oitava série que ouvi aquilo pela primeira vez. Deu o sinal para o intervalo, todos os alunos se levantaram para sair correndo, e o professor me segurou. "Bruno, por favor, venha cá um instante". Com um sorriso meio amarelo no rosto, ele disse: "Você escreve bem, gostei do texto dessa semana". Fez uma breve pausa e prosseguiu. "Mas tem um probleminha que identifico em quase todas as suas redações: você é prolixo".

Nunca havia sido qualificado como prolixo até então. De acordo com o professor, eu poderia me expressar melhor se fosse direto ao ponto, evitando "dar tantos rodeios", como ele disse. Segundo ele, isso gera um mal estar no leitor, um misto de ansiedade, por querer saber logo onde o autor quer chegar e, depois, desinteresse. Um texto prolixo, continuou o professor, pode fracassar na comunicação. 

Lembro que, na hora, não dei muita bola. E confesso que até fiquei um pouco lisonjeado, afinal eu carregava um adjetivo sofisticado, exótico, incomum, pensei. Eu não era o baderneiro, o piadista, o bobo, o bagunceiro ou o preguiçoso da sala. Eu era O Prolixo da sala! Imaginei a diretora mandando um recado para minha mãe, dizendo que "seu filho ficará suspenso por três dias por cometer atos de prolixidade contra os colegas". Imaginei eu andando pelos corredores e os outros garotos com medo de mim, tipo "não mexe com ele, cara, ouvi dizer que é prolixo".    

Mas aí, nos anos seguintes, ouvi isso mais algumas vezes. Eu já tinha uma noção do que era ser prolixo, mas ainda não compreendia a dimensão do termo. Para o dicionário Houaiss, "prolixo" é aquele que "usa palavras em demasia ao falar ou escrever, que não sabe sintetizar o pensamento". É, ainda, alguém "cansativo por estender-se demais no tempo, que tende a arrastar-se". Também quem "produz em abundância".  

Tendo isso em mente, tive de lidar com a sina de ser prolixo. Nas aulas de redação do cursinho, 30 linhas nunca eram suficientes. Na faculdade (de jornalismo, que ironia), eram páginas e mais páginas gastas em seminários ou reportagens especiais. "Legal, mas isso você pode cortar, não?". O chamado "nariz de cera", jargão muito usado no jornalismo para expressar um parágrafo introdutório vago, sem necessidade e que demora para dar a notícia, era comum. Trabalhar numa emissora de televisão chegou a ser uma tortura, porque minha função era escrever notas do tamanho de um post no Twitter, com o qual, aliás, nunca me dei bem. Jamais consegui me comunicar em 140 caracteres.

Passado um tempo, comecei a entender que a prolixidade não é uma patologia da comunicação, como alguns querem fazer crer. Ela é reflexo de como vejo o mundo, ou seja, de como me coloco no mundo. Por anos, senti vergonha de ser assim. Alguém que praticamente fala enquanto pensa e, assim, não consegue entregar, por meio da fala, um pensamento pronto, com começo, meio e fim, com palavras na medida certa. 

Quando eu conhecia uma garota e começava a sair com ela, em algum momento eu dizia: "preciso lhe confessar uma coisa, sou prolixo". Geralmente a garota ria, mas, diante da minha expressão rígida, recuava e me perguntava, "isso é um problema?". 

Até hoje me pergunto, é um problema ser prolixo?

Em uma sociedade que a cada dia cria novas doenças, medicalizando comportamentos, não me surpreenderia que, em breve, colocassem a prolixidade na lista do Manual Diagnóstico e Estatístico de Transtornos Mentais (DSM, na sigla em inglês), publicado desde a década de 1950 pela Associação Americana de Psiquiatria para auxiliar profissionais da saúde mental a identificar e diagnosticar transtornos mentais. Nas últimas décadas, o DSM vem sendo acusado de transformar problemas cotidianos ou traços de personalidade em transtornos, dignos de tratamento alopático, como é o caso da dislexia.

Um sociedade que valoriza a rapidez, os resultados, o lucro e a eficiência espera que você, quando abrir a boca, diga apenas o suficiente, nada além do necessário. Que seja breve, vá direto ao ponto. Não há tempo para desvios, esquecimentos, pausas, mudanças de assuntos. Não abra parênteses, nos dê apenas pontos finais. Livros de auto-ajuda querem que você se comunique melhor para arranjar emprego, namorada, dinheiro. Para ser bem sucedido, fale com clareza, com firmeza, não demonstre dúvidas. Poucos se dão conta, a ditadura do discurso sucinto é tão repressora quanto qualquer outro tipo de ditadura. Os tempos condenam o "textão", o áudio de 5 minutos, o vídeo de 10. 

O problema é que (eu pelo menos entendo assim) a vida não é uma estrada que nos leva do ponto A até o ponto B. E, sendo a linguagem representação da vida, o excesso de regras pode castrar o livre pensar e o livre falar, levando à repressão das ideias. Sim, porque muitas vezes somos bombardeados por muitas ideias, que transbordam nossa capacidade de organizá-las na mente, dificultando, assim, a capacidade de expressá-las de maneira organizada. A confusão faz parte, não é uma exceção. Mas os padrões de consumo nos dizem que não podemos ter tempo para pensar e nos confundir, para refletirmos, irmos e voltarmos atrás quantas vezes quisermos. Porque a fila do caixa anda. Na dúvida, leve os dois, é mais rápido e prático.

Vejo o prolixo como o anarquista da linguagem. Enquanto muita gente o vê como alguém que não consegue sair do lugar, que "dá rodeios", na verdade é o oposto: na cabeça do prolixo, as palavras, as imagens e as ideias dançam ao som de uma sinfonia, tão complexa quanto a vida externa. E é essa sinfonia e essa dança que o inspiram a pensar e agir. Ele não quer deixar passar detalhes, pormenores às vezes tão sutis que são tratados como irrelevantes pelas pessoas de fala "eficiente". Quem desqualifica o excesso corre o risco de perde-se no vazio dos verbos de ação. 

O prolixo tem um peso político e uma responsabilidade literária, artística. Sua capacidade de perder-se na fala e alongar-se nas descrições e nas explicações pode render (nem sempre isso acontece, é verdade) frutos inesperados. Pois é da divagação e da livre articulação de pensamentos que o processo criativo se alimenta, pelo menos em parte. 

Experimente ser prolixo por um dia. Comece a escrever sem se preocupar com o número de caracteres ou de páginas. Sem se preocupar em ser "claro, conciso e objetivo". A ideia de objetividade é tão artificial quanto a de prolixidade. 

E não falo de prolixidade apenas na escrita ou na fala. Falo de prolixidade enquanto posicionamento no mundo. Por exemplo, sempre preferi amores prolixos, daqueles em que podemos, sem medo, nos perder no outro sem que esperemos algo disso. É poder ficar horas diante do outro, sem achar que foi uma perda de tempo. É não pensar em "preliminares" como um "nariz de cera", e sim pensar a comunicação entre duas pessoas como um todo - corpo, mente, alma - sem ter de colocar as partes numa ordem de importância. Não existe hierarquia, quando o mais importante é sentir e fazer sentir.

O prolixo coloca-se no mundo como uma bússola desregulada, que uma hora aponta para o norte, depois, inesperadamente, para o sul. A sociedade da eficiência joga no lixo uma bússola desregulada ou, então, manda para o conserto. Pois, desde cedo, aprendemos que desviar do norte é estar perdido. E estar perdido é errado, é perda de tempo. No entanto, ao pensarmos diferente, valorizando o erro e assumindo que somos seres erráticos, podemos entender que jamais se perde tempo com nada. 

Sento diante de uma imensa parede azul. Tão grande e tão azul que meu olhar se perde desesperado. Para onde olhar? Não há sequer um ponto para o qual eu possa olhar fixamente! Olhar para um Universo sem estrelas e pontos de referência seria muito mais perturbador, não? Nossa cultura civilizatória nos ensinou a temer o Nada. O lugar-nenhum que jamais visitaremos, não por falta de interesse, mas por medo. 

Diante do papel em branco, despejo meus pensamentos e ideias. Como descrever, com poucas palavras, aquilo que me arrebata por completo? Um artifício: fingir que tenho claras as ideias. Fingir que tenho conclusões. Fingir que falo apenas o necessário.

Ser editor de si mesmo é a finalidade. E a regra. Finalidade que evito. Regra que burlo. 

Se não fosse minha prolixidade, eu não teria chegado a onde não pensei em chegar. 

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