Esfera Genérica

Decepção

Após ter sonhado com a morte de meus amigos, chorei. E um amigo meu, que era um dos que morriam em meu sonho, riu-se todo e me disse: "Homem não chora".


Passado

O psicólogo chama de nostalgia o que me sufoca.

Sou nostálgico.

Eu chamo de dor.

Estou dolorido de tanto levar pancadas do passado.

O passado me acorda de vez em quando, querendo voltar.

Eu digo que não, dou-lhe um soco na cara.

Mas depois me arrependo profundamente e peço desculpas.

Eu e meu passado brigamos e nos conciliamos.

E ficamos sentados no meio do caminho, recordando minha vida.


Escrita 

Há uma grande diferença entre as motivações que nos levam a escrever. Sim, sei que há. Não, não tenho ainda comigo a certeza branca, clara, sem graça. Mas me inquieta, e às vezes me intriga, pensar que não consigo mais escrever como antes. O que me motivava a escrita anos atrás era uma despreocupada preocupação, exatamente os paradoxos, as incompletudes, as paixões impossíveis, desejos, que sabia, não seriam realizados - sequer o poderiam ser. A falta de. O estar para. O eterno contudo. O bloqueio. Não escrevia propriamente sobre o bloqueio da escrita, mas a respeito dos bloqueios que a própria vida nos prepara. E nos mantem confortavelmente numa triste posição de distância entre nós - a pessoa - e o objeto de desejo. A menina de cabelos ruivos da sala de aula não teria o mesmo brilho se fosse concretizada, por vontade própria, a união física e intelectual entre eu e ela. A ambição só é um veneno fatal para quem não se dá conta dos prazeres que ele pode proporcionar durante poucos segundos.

Hoje a escrita não serve mais para me manter distante de nada. É ela que me garante a aproximação com o dinheiro, com a mediação. Escrevo para; não escrevo por.

A não ser que eu jamais perca a consciência de que a vida cotidiana precisa de distanciamentos, silêncios. Escrever em silêncio, no silêncio. Não esperando tecer nada a não ser a própria metamorfose.

É isto que aqui faço agora, caro leitor.


Entrega

Ele esperava por algo que não sabia se viria do céu ou de dentro da Terra. Sabia que era misterioso, concreto, profundo. Tinha em mãos sempre um livro qualquer que tratasse de algo difícil, de leitura árida. Era assim que conseguia manter distanciamento das coisas - ou melhor, das coisas sem importância. Evitava, no entanto, assuntos religiosos, mas de uma maneira pouco convincente. Evitava como um amante evita um novo par de pernas, mas não termina a noite sozinho na cama. Como é triste se dar conta de que fraqueza e redenção caminham muito próximas, mais do que poderíamos imaginar.
  

Tristeza

Tristeza, ao meio-dia, é sufocamento.
A janela aberta, um convite ao infinito.
Duas horas depois, um corpo carbonizado lhe procura.
Oferece um abraço.
Às duas, o desespero toma conta do que resta.
Uma dor no peito, um vazio. A janela trancada não é mais ação.
Fechada, ela é só mais tristeza. A rondar-me.

Tenho a minha volta livros, objetos e histórias.
Nada podem fazer a meu respeito.
O pensamento não é mais movente.
As drogas não causam mais furor.
O sol não cativa meus desejos.
O artificial é a lei até o fim dos dias.
Ah, tristeza. Que dias!
[12/11/2013]


Passagem

Da partida, fui a volta
Durante um tempo, a vida foi rude
E na vitrola, Walter Franco canta
Eu te amei como pude

Fim

A privação pode ser libertadora.
Há três dias não nos vemos, não nos falamos.
Imagino que você esteja feliz.
Livre, enfim, de mim.
Na realidade, a dor é a verdade.
E o prazer, o delírio - que encobre, alivia, mas se esgota.
Nosso fim, enquanto casal, é apenas o retorno à realidade que nos cerca.
É como abrir a janela e ver somente o que é apresentado a nós: concretude.
O que aceitávamos como realidade não passava de engano.
Está aí, é isso o que somos.
Dois tristes e desamparados seres humanos.

Incompletude

Somos incompletos?

Desde o início da juventude, colocam em nossas cabeças

Que o verdadeiro amor irá nos completar

O outro que dá certo é o outro que preenche nossa metade vazia, incompleta

Ensinam a nós, portanto, que sozinhos não somos completos

Que precisamos de alguém que faça esse favor: nos torne íntegros

Crescemos acreditando nesse mito da incompletude

Segundo esse mito, nossa felicidade plena, ao menos no amor, depende do outro

Claro, o amor depende do encontro de duas pessoas

Mas fizeram confundir união com dependência

Como se, sozinhos, fossemos um quebra-cabeças no qual sempre resta uma peça

Unir-se a alguém não pressupõe que eu deva completar essa pessoa

Porque é muita responsabilidade para ambos

É pesado demais

É depositar uma esperança incomensurável no outro

Esperando que ele me faça completo

Essa crença nos torna cegos ao longo da vida

Não temos a chance de aprender (sequer tentar aprender)

Que podemos ser completos com nós mesmos

Que se aceitar como um ser completo é o primeiro passo para aceitar o outro

Que se existe apenas uma metade cheia, esta então é nossa completude

Que diz respeito ao que somos, e que nos basta (ou deveria bastar)

Viver a esperança de que devemos, quase por obrigação, ser completados por alguém

É aceitar que nossa essência é manca

Que nosso âmago é truncado

Que somos incapazes de conquistar a felicidade

Se entendemos completar como o ato de acrescentar a algo o que lhe falta

Aceitamos a tese de que, finalmente, nossa felicidade só pode ser compartilhada com alguém, mediante um acordo em que um deve completar o que falta no outro

Eu acho graça, ela não acha graça - isso não é completar, é louvar a contradição!

Sim, devemos buscar a contradição!

Ela é que traz a vibrante experiência que é estar vivo!

Surpreende a tristeza com a luz que o outro pode oferecer.

É perceber que a relação não deve estar acomodada no jogo da completude

Mas na trama complexa da soma e da subtração, da multiplicação e da divisão

O outro pode acrescentar experiências, subtrair vícios de nós, multiplicar uma qualidade que não valorizávamos em nós mesmos, e nos fazer dividir o que temos de melhor

Mas jamais o outro irá tomar o lugar de uma falsa metade em nós

Somos conjuntos, redes, ligações e desconexões, e não monolíticos. E não a Vênus de Milo à espera e braços.


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